quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Sobre tudo e minha revolta




Faz tempo que não escrevo aqui e muita coisa aconteceu desde então. Se alguém ainda tem dúvida, está tudo bem, eu continuo em remissão completa do borderline, restando apenas os traços, porque não é algo que simplesmente dá para extirpar de uma pessoa. Mas, descobri que meu problema principal se chama transtorno dissociativo de identidade (TDI), ele era o guarda-chuva que abrigava todos os outros transtornos e, ultimamente, tenho lidado com ele.

O que tenho percebido é que a maioria das pessoas se constrange e repudia ainda mais o TDI do que quando eu falava sobre o borderline. É quase como se eu estivesse inventando ou fosse alguma atração exótica de um circo. Essa é, especificamente, a parte mais difícil que tenho encontrado, pois o modo como as pessoas são preconceituosas e estigmatizantes comigo afeta também o modo como eu me vejo, apesar de eu saber que não importa o que os outros digam, mas sim o que eu acredito. Vamos ser realistas: quem não fica mal com uma crítica destrutiva ou uma ofensa do outro? Eu nunca conheci ninguém.

Nesse meio tempo, além de lidar com isso, eu entrei em depressão grave no fim do ano passado e tentei cometer suicídio. Foi algo muito assustador, diferente das outras vezes, pois se antes era um ato impulsivo fruto de uma instabilidade emocional momentânea , nessa última vez parecia algo calculado, pois eu apenas conseguia enxergar o mundo em preto e branco e era sempre triste, sempre, como se um estado de desânimo permanente tivesse tomado conta de meu corpo. Quando o borderline era mais evidente, eu sentia muito em pouco tempo, altos e baixos, mas, durante aquele mês era apenas tristeza e vazio.

De qualquer forma, eu sobrevivi, e melhorei, mas sei que, qualquer dia desses pode acontecer de novo, então eu resolvi me preparar. Claro que eu estou ciente de que não existe uma forma concreta de impedir uma depressão, mas a gente é teimoso e tenta mesmo assim. Eu tenho começado a fazer coisas que eu gosto como arte surrealista, confeitaria e - finalmente - terminando de escrever um livro de fantasia. Essas atividades ocupam a minha cabeça e distraem da ambivalência que é a vida onde ao mesmo tempo existe muita beleza e motivos para querer viver e também muita crueldade e motivos para querer desaparecer.

Quanto ao TDI, bem, não existe um tratamento 100% funcional, mas o que eu já estava fazendo - a terapia comportamental  e analítica - continua ajudando. Muitas pessoas, incluindo profissionais, acham que o TDI não é real e isso é fruto de uma ideia ultrapassada e antiga, que nunca foi baseada em evidências. Atualmente, existem exames de imagem que provam que o TDI não apenas é muito real como também surge em resposta à traumas graves e sucessivos acontecidos na infância. Foi o meu caso e isso explica porque minha mente se dividiu em seis personalidades.

Os psiquiatras classificam o TDI como um transtorno dissociativo e é importante esclarecer que a dissociação é um estado comum da mente, acontecendo com todas as pessoas, como por exemplo quando você está viajando de ônibus e não se recorda de um trecho da estrada porque estava devaneando. Uma parte da sua mente pensava em alguma coisa enquanto outro observava a estrada, só que uma não soube da outra. E tudo bem. Isso passa e você segue sua vida. O TDI é a mais grave dissociação que existe, pois a mente se separa em identidade próprias, com nome, personalidade, estilo e memórias características a fim de proteger a pessoa contra o sofrimento insuportável que as lembranças traumáticas trariam. Como vocês podem ver é um mecanismo de sobrevivência e não uma invenção da cabeça.

O que mais me estressa e frustra é que as pessoas insistem em manter seus comportamentos de estigma e preconceito, e sim, eu sei que a maioria não faz por mal, mas sim por ignorância, porém, estamos em 2020 e todo mundo tem acesso a informação. No fim das contas, é mais fácil manter como está porque, se você pensar, é confortável para essas pessoas, enquanto elas mantém pessoas como nós sob estigma e preconceito, elas não tem que pensar em si mesmas e em suas próprias vidas, se pensassem perceberiam que estão cheias de problemas e complexos ás vezes mais graves dos que os seus alvos. Se pensassem perceberiam que apontar para os outros é uma fuga de si mesmas para não admitirem seus defeitos, medos e fracassos, porque, quando eu estou focando nos defeitos do outro, me sinto melhor, superior, como quando acontece uma tragédia e a gente pensa "ainda bem que não foi comigo" isso é um pensamento para nos sentirmos melhor que os outros, e faz parte de ser humano, o que eu acho que não deveria fazer é fingir que nada disso acontece e que a vida é perfeita e as pessoas deveriam seguir um manual padronizado, e, qualquer um que fuja dessa padrão seja massacrado, muitas vezes até a morte.



terça-feira, 12 de novembro de 2019

Sobre aceitação e depressão




Parece que vou terminar o ano no mesmo estado de espírito que comecei: deprimida. Eu sei que, talvez, eu já devesse estar acostumada, praticamente vivi a vida toda assim, mas eu sempre tenho aquela esperança de que, em um belo dia de sol, eu estarei curada, 100% livre de todas as minhas mazelas mentais e emocionais. É um belo pensamento com objetivo totalmente irrealista e inalcançável. É difícil aceitar a realidade, não é? Eu acho que é um dos maiores - e eternos - desafios do ser humano...

Existe algo na terapia chamado "aceitação radical" que é, basicamente, aceitar aquilo que você não pode controlar. Soltar de vez, deixar pra lá. Se não pode ser modificado então está resolvido. Eu tenho muita dificuldade até hoje em relação a isso. Mesmo porque eu fui feita para me importar demais com tudo e com todos, então parece meio incompatível aceitar uma realidade cruel e injusta. Mas o que, de fato, eu posso fazer em relação a fome, guerras, maldade e negligências que existem no mundo? Menos que nada... Então, eu simplesmente tenho que aceitar que tenho nenhum controle sobre a vida. A vida acontece, segue em frente. A primeira vez que tive noção disso foi na minha segunda cirurgia. Era a primeira vez que eu estava com medo de morrer (e não esperando morrer), tudo parecia apavorante na minha perspectiva e então eu olhei pela janela. Uma visão bem bonita da Paulista estava a minha frente. Árvores, carros, pessoas, céu azul. Então me dei conta de que, se eu morresse, não havia a menor importância porque a vida ia seguir seu curso, as pessoas continuariam vivendo suas vidas, e, aos poucos eu seria uma lembrança ocasional na mente das pessoas que me conheceram e me amaram. O esquecimento, a falta de importância, tudo aquilo machucava profundamente porque era como engolir um pílula bem difícil de descer, mas era a realidade e não havia nada a fazer exceto aceitar. Isso foi como um ponto de virada para mim. Tudo o que eu achava parecia estar se dissolvendo pouco a pouco. Eu era apenas um ser humano que morreria como todos os outros, cuja vida não tinha a menor importância no tempo e espaço. Isso dói. Nosso ego não foi feito para pensar na finitude e no nosso papel diante do cosmos. 

Ao mesmo tempo, eu respirei fundo e percebi uma coragem dentro de mim, a mesma que é descrita nos livros quando rebeldes e líderes são levados a morte, mas com a cabeça erguida, sem desespero. Tenho certeza de que eles sentiam medo, como eu estava sentindo, mas já que o fim é inevitável, ao menos enfrentarei com curiosidade e postura. Eu sempre acreditei que somente assim se honra a vida. 

E aqui estou eu... Viva, deprimida, mas viva. Ainda não sei dizer se há alguma vantagem nisso, mas eu sigo buscando. Eu busco um propósito, eu sigo ajudando o máximo de pessoas que eu consigo (porque acredito que traz valor a minha vida sentir-me socialmente útil), eu sigo caminhando um dia de cada vez. Hoje as coisas perderam a cor, mais uma vez, e não há nada que eu possa fazer, afinal eu já tomo medicação, faço meditação, tento fazer as coisas que gosto, mas inevitavelmente a depressão me alcança, de alguma forma ela corre mais rápido do que eu. Eu aceito, porque sei que vai passar, assim como passou várias vezes, todos os anos, mas ainda não deixo de ter um pontinha de esperança de, quem sabe, passar de uma vez por todas e nunca mais retornar... 


quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Existe cura para o transtorno da personalidade borderline?


*Remissão do Borderline ------------------------------ Significa não encaixar entre 5 a 9 critérios -------------- Contudo não significa uma melhor qualidade de vida                  Fonte da foto e matéria (em inglês): clique aqui

Talvez a pergunta mais assertiva seja: "será o transtorno da personalidade borderline (TPB) uma doença ou apenas um mecanismo de adaptação?".... Ninguém sabe ao certo. Na área da psiquiatria, nunca é tão simples quanto gostaríamos. Existem muitas pesquisas, livros, teorias, mas certeza ainda não é possível. As evidências apontam que não seja uma doença, mas sim uma espécie de mecanismo de defesa, uma resposta a um ambiente ou evento invalidante em um cérebro predisposto ao borderline. Existem autores com diversas opiniões divergentes. No Brasil, infelizmente ainda predomina a ideia de que seja algo incurável, uma doença triste, beirando a psicopatia, porém as pesquisas apontam o contrário. O borderline é o transtorno mais tratável na atualidade, e com altas taxas de remissão completa, como tem sido o meu caso, além disso, não existe nada de psicopatia e todos os comportamentos e sintomas podem ser racionalmente explicados por um aumento  ou diminuição de determinadas áreas cerebrais. Com tratamento especializado, a melhora dos sintomas acontece em até dois anos, sendo que em quatro anos já é possível a remissão total. 

Remissão é cura? Não. Mesmo porque para curar, algo precisa estar "quebrado". Uma personalidade não pode ser considerada quebrada. Os sintomas do borderline não tornam a pessoa incapacitada, doente, indigna, muito menos psicopata. São pessoas cujos cérebros necessitaram se adaptar a ambiente ou eventos que lhe causaram severa instabilidade emocional, um cérebro que já tinha predisposição a desenvolver (ou não) esse transtorno de personalidade. Portanto, não é exatamente uma doença, mas causa severos prejuízos a pessoa e a quem convive com ela e é por causa desses prejuízos que é necessário um tratamento especializado. Então, sim, remissão existe, mas não cura. 

Há que se distinguir a diferença entre cura e remissão. Na cura, a doença desaparece e não volta, já na remissão é quando a doença permanece sob controle, ou seja, no caso do borderline é quando a pessoa não se encaixa mais nos critérios do transtorno. Para quem não sabe, existem nove critérios descritos no DSM-V,e são necessários mínimo de cinco para ter o transtorno. Alcança-se a remissão parcial quando a maioria dos sintomas fica "inativo", e remissão total quando "sobram" apenas traços (entre 1 e 4 sintomas), e assim permanece durante muitos anos ou até o fim da vida. 

Existem dezenas de terapia usadas, especificamente para o borderline, sendo a mais popular a Terapia Comportamental Dialética, criada pela psicóloga Marsha Lineham, a própria já sofreu bastante o transtorno em sua juventude. Mas além dessa, existem outras como a Terapia do Esquema, a Terapia Focada na Compaixão, STEPPS, Terapia Baseada na Mentalização, entre outras. Sendo assim, não é mais aceitável que profissionais ainda falem que esses pacientes são "difíceis" ou "incuráveis", muitas vezes profissionais que dizem assim são aqueles que não procuraram se atualizar - e eu já passei muito por isso, acredito que no Brasil ainda seja comum. 

Há muito preconceito e estigma em torno do borderline, também pela má representação do transtorno em séries, novelas e filmes, até mesmo psiquiatras conhecidos que estigmatizam o borderline reduzindo aos termos "ama demais", "manipulador", "pessoa difícil". A falta de educação e desinformação é o que tornam a pessoa tão relutante em comentar com qualquer um sobre seu próprio sofrimento, porque ela teme ser ridicularizada ou vista como alguém "sem caráter". É por isso que escrevo esse texto. Eu ouvi todas essas coisas durante toda a minha vida. Eu escutei duras palavras sobre o quanto eu era manipuladora, mentirosa, cheia de frescura, só queria chamar atenção e até mesmo de psicopata eu fui chamada. Amigos me abandonaram. Familiares de sangue se afastaram. Mas eu não desisti. Eu sentia que se existia algo de errado comigo, então teria de haver uma explicação lógica. E tem. As pesquisam provam por A+B que existem alterações no funcionamento cerebral, um aumento ou diminuição em determinadas áreas. Isso pode explicar os sintomas que tem como base a severa desregulação emocional. Eu não escolhi, você não escolheu, então não é justo dedos serem apontados e vídeos serem gravados por aí sobre o quanto essa pessoa é "ruim" ou "monstruosa". Essa é percepção de um dos lados. A história sempre tem dois lados. Geralmente, gostamos de escutar o lado da vítima em potencial, mas do outro lado pode ter alguém sofrendo intensamente e ela apenas não saiba como lidar com esse sofrimento. 

Todo mundo sofre em maior ou menor grau. Mas eu queria que as pessoas que não tem borderline imaginassem como é. Seria o equivalente a um paciente com uma queimadura de terceiro grau, só que emocional. Uma falta de proteção, de "pele emocional", o menor toque/comentário/eventos desencadeia grande dor (porque falta proteção interna) e eu pelo menos nunca vi alguém com dor ser simpático. Lembre-se de todas as vezes que você teve uma simples dor de barriga, se alguém tentasse falar com você no momento da cólica, certamente você não reagia com alegria, e sim com raiva ou desespero, porque, aquele momento, você só quer que a dor pare. Assim funciona uma crise borderline. Você pode ver uma pessoa descontrolada, desequilibrada e até menos sem caráter, mas você não sabe a verdade. Ela tem um cérebro tentando de tudo para parar uma dor emocional intensa. Essa pessoa não teve a mesma chance que você teve de aprender a lidar com as emoções, mesmo que ela tenha tido uma educação igual a sua, ela tem uma diferença cerebral. Não é proposital, não é uma falha de caráter e muito menos é incurável. 

Eu sou uma das provas de que é possível superar os sintomas que prejudicam e permanecer a parte boa. Porque sim, borderline tem partes muito boas. Você é sensível, tem alta empatia (diferente do que profissionais desatualizados dizem, o border sofre de muita empatia), muita criatividade, inteligência e alta capacidade de se colocar no lugar do outro, enxergar a vida por vários ângulos diferentes. Não existe nada de errado com você, assim como não existia nada de errado comigo. Só precisamos aprender as ferramentas para criar a pele emocional. Uma vez aprendidas, as coisas ficam mais fluídas, menos sofridas, e conseguimos lidar com a dura realidade. 

Portanto, não desista. Levante quantas vezes forem necessárias. Uma vez eu acreditei que jamais melhoraria, e hoje eu sou uma pessoa mais estabilizada, muita gente me considera "normal" (o que será que isso significa?)... Faça isso por você e por aqueles que realmente te amam. Se eu consegui, você consegue também.

Para saber mais visite o antigo blog: Blog EnlouqueSer

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Sobre ser mais de um "eu" - Parte 2



Agora você sabe um pouquinho sobre o transtorno dissociativo de identidade (TDI), se não leu clique aqui, então eu vou descrever como é um dia dentro da minha cabeça, quer dizer, eu vou tentar, pois eu não tenho recordações de tudo...

Antes de descobrir o que eu tinha, eu acreditava ter apenas o transtorno da personalidade borderline então tudo que acontecia comigo eu acreditava ser por causa disso, mas havia algo bem estranho... Sempre em momentos muito estressantes, eu desligava completamente e "acordava" com diversos machucados pelo corpo, sem ter a menor noção de como tinham acontecido. Apesar de"sintomas dissociativos" sejam comuns em quem ter borderline os meus sintomas pareciam ultrapassar alguma espécie de limite... Então eu reparava que ficava dias, ás vezes semanas, sem nenhuma lembrança. Além disso, a maior parte da minha infância, eu não tenho recordação e entre doze e dezessete anos, eu tenho apenas flashbacks. Mas tudo isso parecia tão comum para mim que eu achava que com todo mundo era assim, até que comecei a notar que muitas pessoas tinham lembranças detalhadas de suas vidas na infância e adolescência. Isso me fez cair a ficha de que possivelmente eu pudesse ter um transtorno dissociativo. 

Muita gente não acredita que isso exista e não acredita que uma pessoa possa ter os dois diagnósticos. Quanto a não existir, já ficou provado que é falso. A doença existe, a única controvérsia é se ela é um desdobramento do borderline ou um diagnóstico isolado - ou quem sabe apenas um cérebro diferenciado. Eu acredito que seja um desdobramento do borderline ou o contrário, que o borderline seja consequência do TDI ou ainda que ambas sejam a mesma coisa. Eu não consigo ver elas separadas e eu encaixo na lista de sintomas das duas. 

Mas como é ter um TDI? Eu só posso falar por minha experiência.... Sempre foi como se houvesse uma consciência principal, apenas observando, enquanto várias outras partes interagiam entre si. Vozes internas que discutiam entre si, tentavam me consolar, alertar, proteger e também machucar. Era como se todas interpretassem um papel. Eu não me sentia no controle de minhas emoções, principalmente a raiva. Muita gente que me viu nesse estado dizia que eu me tornava outra pessoa. Eu quase nunca tinha lembrança dessa virada de humor. Em relação ao medo era a mesma coisa, dizem que eu ficava em estado infantilizado. Eu sinto como se fosse "possuída" por diversas "identidades" diferentes, sem poder nenhum de interagir, muitas vezes apenas observando, e em outras sem nem saber que aconteceu. Eu ouvia vozes internas sendo agressivas e rudes comigo, me levando a duvidar de mim mesma e me impedindo de concluir algumas tarefas, principalmente aquelas que me levassem a um novo nível como faculdades, cursos, mudanças de emprego. Eu nunca consegui terminar de escrever um livro devido a algum momento em que uma identidade me colocava em dúvida sobre minha própria capacidade. Eu nunca achei coragem para fazer a faculdade e o curso que tanto desejei porque as vozes me diziam que não era seguro ou que eu nunca seria capaz. Eu deixei de fazer amigos, de manter amigos e de mandar "amigos" irem embora por causa dessas vozes. Não eram vozes externas, e sim internas, como pensamentos, só que eu não podia controlar e elas pareciam ter identidade própria, opiniões, nomes e valores internos. Eu nunca consegui ser eu, porque o meu eu está dividido dentro de mim.

Havia muita falta de aceitação da minha parte, de certa forma, eu tinha preconceito comigo mesma. Parecia impossível eu ter um transtorno dissociativo de identidade. Algo fantasioso. Eu achava que seria rotulada e julgada, que as pessoas pensariam que era uma desculpa para meus comportamentos, foi como um medo extremo de ser "jogada em uma fogueira". Algumas pessoas são especialmente cruéis quando protegidas em um grupo, e quando se trata de transtornos mentais existem muitos grupos que atacam impiedosamente. Eu me neguei a aceitar o fato, ultimamente queria até mesmo esconder o borderline, mas isso não me ajudou. Então eu comecei a aceitar isso e que eu não era a única. Há muitas pessoas passando pelo mesmo e com medo de se abrirem. Foi então que decidi escrever no blog, voltar a falar sobre o borderline e finalmente abordar isso em terapia. Eu consigo enxergar meus "eus" e aceitá-los como eles são. Eu compreendo que todos são eu, e eu sou todos eles, não existe um separado do outro, eles estavam apenas em quartos separados de portas fechadas. Eu também compreendo que a dissociação é um mecanismo de sobrevivência, o único possível para uma criança dependente e indefesa. Isso me fez perceber a força do nosso cérebro, a vontade de que as coisas deem certo e possamos continuar nossas vidas. Eu sou uma sobrevivente e ninguém pode tirar de mim esse mérito. Além disso, eu me tornei alguém bem resiliente, que nunca desistiu de encontrar respostas, de certa forma, mesmo querendo morrer em alguns momentos, uma parte de mim nunca desistiu de mim. Apesar de ser algo extremamente difícil em lidar, agora consigo ser grata. Isso fez e faz parte de mim, mas não é o que eu sou. 



quarta-feira, 10 de julho de 2019

Sobre ter mais de um "eu" - Parte I



O transtorno dissociativo de identidade era (e ainda é por gente desatualizada) chamado de Transtorno de Personalidades Múltiplas. Não são bem "personalidades", mas identidades, estados mentais diferentes uns dos outros. E do contrário do que se prega, a esmagadora maioria não é agressiva, exceto consigo mesmos



"A característica essencial do Transtorno Dissociativo de Identidade é a presença de duas ou mais identidades ou estados de personalidade distintos (Critério A), que recorrentemente assumem o controle do comportamento (Critério B).

Existe uma incapacidade de recordar informações pessoais importantes, cuja extensão é demasiadamente abrangente para ser explicada pelo esquecimento normal (Critério C).

A perturbação não se deve aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância ou de uma condição médica geral (Critério D). Em crianças, os sintomas não podem ser atribuídos a companheiros imaginários ou a outros jogos de fantasia."  Fonte PsiqWeb


Quando eu iniciei, há 4 anos atrás, meu tratamento para transtorno da personalidade borderline, o sintoma de dissociação (já explico) não era tão frequente, e acabou se confundindo com um transtorno do estresse pós-traumático associado. Na verdade, eu achava que o que acontecia comigo era tão estúpido que eu não tinha a menor coragem de revelar ao meu psiquiatra, com medo de ser internada a força. Com o tempo, ele mesmo percebeu que havia mais coisas, mas não se aprofundou acredito porque eu tinha de ter a iniciativa. Há seis meses atrás entrei em depressão grave e só agora eu percebi que devia lidar com o transtorno dissociativo, já que o borderline está relativamente em controle - o que eu achava impossível. 
Desde muito nova eu me percebo sendo mais de uma identidade. Com sete ou oito anos eu tive meu primeiro pensamento suicida - pelo que me lembro - mas mesmo antes disso eu tinha a sensação de que algo estranho havia acontecido comigo. Eu não tinha amigos imaginários, eram como identidades na minha mente e que eu conseguia "enxergar" no espelho. Também não era uma alucinação e era tão automático que parecia normal. Achei que isso acontecesse a todo mundo, mas com a adolescência percebi que não. Eu era estranha e provavelmente maluca e um dia seria internada para sempre. Isso me assustava demais. 

A dissociação para quem não sabe é como um divisão na mente, como quando você está dirigindo o carro e de repente se dá conta de que não se lembra de um trajeto, mas você dirigiu. É isso só que em uma amplitude maior e por muito mais tempo. Eu lembro bem da primeira vez que eu percebi que estava dividida. Eu devia ter uns onze anos e foi logo antes do meu trauma mais doloroso. Eu me vi falando sozinha com respostas diversas como se várias pessoas discutissem em uma sala. Eu não havia me dado conta até aquele momento. As partes tinham nome e identidade próprias. Cada uma com uma opinião. Eu não achei especificamente estranho, mas sabia que eu jamais poderia revelar a ninguém. E então eu fiquei dois meses sem ir a escola. 60 dias em que não lembrava de nada além de flashes. Aparentemente eu tinha falsificado bilhetes da escola e enganado minha mãe, mas eu não lembrava de muita coisa. Ela chegou gritando e me espancou - mais trauma. Eu admiti a culpa sem me lembrar como aconteceu. Eu fiquei confusa por semanas. Até que o trauma aconteceu. Talvez meu inconsciente já tivesse captado os sinais do trauma e assumir aquela identidade me protegia da dor. Mas eu não pude ser poupada de sofrer um abuso sexual. Quem via de fora não achava que havia sido algo sério, porque ele não me tocou, nem nada, mas ele era como um pai, cuidou de mim desde bebê, e não era possível nem aceitável que visse uma criança de onze anos com olhar sexualizado. Parte de mim sabia que aquilo era muito, muito errado. E quando meus familiares que deviam me proteger me disseram pra esquecer e depois para perdoar porque "ele cuidou de você", eu percebi que todas as minhas identidades entraram em conflito. Daí em diante foi ladeira abaixo e eu não me recordo de quase nada além de flashes entre meus doze e dezessete anos. 

Hoje eu sei que meu transtorno dissociativo foi causado por todo o abuso psíquico e falta de apego / afeto que sofri na primeira infância. Eu frequentemente me sentia não pertencer a família, um monstro abandonado pelo pai  (porque na minha cabeça ele só podia ter fugido porque eu era um monstro) e sentia que minha mãe nunca gostou de mim. Eu tentava agradar de todas as formas, mas nunca era suficiente. Ela era uma pessoa abusiva, porque era muito jovem, ela me teve adolescente e também tinha tido uma vida difícil. Era uma criança agressiva cuidando de um bebê indefeso e sensível. Eu sempre fui sensível. Sempre. E ela não conseguiu me dar o que eu precisava, faltou afeto e apego.  Isso deu inicio não apenas ao borderline, mas também ao transtorno identidade. Sabe-se que esse transtorno tem como causa abusos sofridos na infância. Imagine uma criança que é abusada pelo pai, mas ao mesmo tempo ele é que é o cuidador dela, lhe dando abrigo, carinho e atenção. Como é possível eu gostar de alguém que me maltrata? Não é. Por isso a mente se divide. Uma parte fica com a dor, a outra continua seguindo em frente "pelo bem de todos". Comigo não foi diferente (esse meus caros, é o poder da adaptação).

Com o tempo eu me tornei vítima de outros tipos de abuso com outros tipos de pessoa, e isso apenas piorou meu estado. Pessoas com transtorno de identidade acabam se colocando em situação de revitimização, afinal isso é tudo o que elas conhecem, o cérebro tende a manter o que acredita ser "seguro".  E é aí que a terapia é super importante. Você precisa ficar consciente para poder lidar com isso, precisa aceitar para poder mudar. E estou nessa fase. 

Eu tenho mais de duas identidades. Não estou preparada para escrever sobre elas, mas sei bem disso. É muito estranho admitir isso, tornar concreto para qualquer um poder ler. Eu sinto como se abrisse uma parte muito íntima minha, mas talvez outras pessoas passem por isso e não quero que se sintam só como eu venho me sentindo. E também não quero ficar lendo tantas coisas estigmatizantes na internet, sem nenhum fundamento científico de pessoas e profissionais que não estudam a fundo isso e propagam ideias falsas.

Eu fico chateadíssima em alguns momentos, me perguntando porque todas essas coisas complexas acontecem comigo. Eu queria apenas viver minha vida comum, acordar e dormir sendo apenas uma pessoa integrada, sem todas essas vozes internas. Queria poder conversar com alguém sendo eu mesma e me lembrar de tudo o que acontece comigo, o que falo e o que sinto. Queria também não ficar refém de uma identidade agressiva que ao mesmo tempo deseja ser salva por alguém externo. Queria que as pessoas não ficassem confusas sobre quem sou eu, porque parece que mudo o tempo todo. Mas nem eu sei mais. Qual dessas sou eu? Essa tem sido a resposta que procuro desde sempre e estou firme no propósito de encontrá-la. 

Não irei me estender nesse texto, no próximo eu conto mais profundamente como é ter mais de uma identidade e o que fiz durante esses anos para lidar com ela. 


segunda-feira, 1 de julho de 2019

Os lobos dentro de mim




[Estou compartilhando alguns textos do meu antigo blog, o EnlouqueSer, nele eu costumava falar sobre as dificuldades do transtorno da personalidade borderline, e lá eu ainda não tinha admitido meu problema de dissociação de identidade que eu explicarei em outros posts mais para frente devido a complexidade do assunto] 

Eu acho os lobos fascinantes. É muito mais do que admiração por serem animais bonitos ou porque os cães são descendentes deles. Eu me identifico e tenho enorme respeito. Eu comecei a pesquisar sobre os hábitos dos lobos há algum tempo, e, cada vez mais compreendo porque minha mente escolheu essa espécie como meu animal de poder, meu totem. Devo confessar que tenho uma inclinação para religiões antigas, principalmente as indígenas. O xamanismo ainda ocupa grande parte do meu coração e, foi através disso que comecei a compreender o que significava ter um animal de poder, funciona com um arquétipo, uma imagem dentro de você que simboliza algo mais, como se o inconsciente estivesse falando diretamente com você, mas, em vez de palavras, ele usa símbolos. Você pode chamar como quiser. 

Minha mente tem facilidade de alcançar os sonhos simbólicos. Segundo o psiquiatra Carl Jung, esses tipos de sonhos são manifestações dos arquétipos existentes dentro de cada pessoa. Arquétipos também se manifestam em mitos. De qualquer forma, eles parecem ter necessidade de se propagar de geração em geração através das histórias que contamos e também em nossos sonhos. Eu sonho com lobos, deuses (ou reis, ainda não entendi direito) e de vez em quando uma pantera. São sonhos contínuos e que, de alguma forma estranha, impactam meu dia a dia, transformam quem eu sou. Mas vamos nos focar nos lobos. Eu sonhos com dois, um preto e um branco, o que talvez represente a noção de dualidade da vida (bom e mau, yin e yang, etc).

Através da minha pesquisa sobre os lobos, eu descobri várias coisas interessantes que se encaixam nos meus sonhos e a mim. Lobos são animais sociais, assim como nós. Eles vivem em grupos, bandos, matilhas. Ao contrário do propagado pela crença popular, não existe o "alfa". Existe um par de lobos, macho e fêmea, que tem papéis estabelecidos - mas que podem trocar entre eles - e lideram o grupo, funcionando como "pais" e não, exclusivamente, como líderes. A matilha precisa ficar unida, pois disso depende a sobrevivência deles. 

Tão pouco a crença sobre o "lobo solitário" é completamente fiel. Lobos não gostam de viver sozinhos, é uma situação de exclusão do bando. Eles não simplesmente ficam sozinhos, são autossuficientes e vivem muito bem assim. Não! Só existe - até onde eu pesquisei! - duas situações em que eles são excluídos: ou quando um dos "pais" está velho demais e é desafiado por um jovem lobo em disputa com o papel de líder, ou quando, se o jovem lobo perder essa disputa, é "convidado a se retirar". Então, o lobo se torna o famoso "solitário". Isso encurta a vida do lobo, e consequentemente ameaça a sobrevivência deles, pois, se todos os lobos fossem assim, estariam em extinção. Um lobo sozinho tem mais probabilidade de ser morto por outro animal ou em consequência de uma ferida que não consiga resolver sozinho. Lobos cuidam dos doentes na matilha, assim como também educam os filhotes e se mantém unidos. Não é vantajoso ficar sozinho, assim como não o é para o ser humano. 

Tudo isso me fez pensar - muito. Eu me senti excluída muito cedo, sendo o período escolar - aonde deveríamos ser integrados socialmente - aonde tive mais certeza de que o meu lugar era sozinha. Eu sempre era "expulsa" dos grupos por um motivo ou outro, e não raramente por desafiar o líder. Não estou dizendo que somos iguais aos lobos, mas há muitas características em comum. Eu comecei a ficar perdida em grupos quando eu me separei do meu "alfa", meu "líder": meu avô. Sem pai e com um péssimo padrasto, eu enxergava meu avô como a única fonte de nutrição, amor, carinho e validação emocional. Mesmo sendo um alcoolista e alvo de piadas e pessoas que julgavam, ele era uma figura que eu admirava e respeitava. Quando ele escolheu ir morar longe de nós, quando ele se isolou certamente porque se sentia um fardo e tinha muitos problemas devido ao alcoolismo em estágio avançado,  eu sofri uma perda terrível. Foi como se ele estivesse morto (e quando ele morreu de verdade, foi como se tivesse morrido pela segunda vez). Lobos sentem o luto, e sofrem também, é uma verdadeira tragédia quando um lobo morre na matilha, e se forem os líderes, o bando pode ser desfeito. A morte é impactante para qualquer ser vivo. Meu avô foi para tão longe que eu tinha certeza de que nunca mais voltaria a vê-lo, portanto era mesmo uma espécie de morte. Foi a primeira vez que me percebi como um lobo solitário. 

Em casa, sozinha, tudo o que eu conseguia sentir, desde muito pequena era o vazio e o sentimento de não pertencimento. Após os nove ou dez anos, as pessoas passaram a ficar ameaçadoras para mim. Como se eu, de repente, houvesse sido expulsa do meu bando e fosse condenada a andar sozinha. Havia a desconexão interna, a falta do meu avô e não ter mais com quem contar para ter esperança, carinho, nutrição. Eu procurei me encaixar em diversos grupos, mas sem sucesso. A idade e os traumas só pioravam a situação. Era como se eu, além de um lobo solitário, fosse alguém marcado, desprezível. Sim, eu era diferente da maioria. Eu era reservada e desconfiada demais - igual um lobo. Eu procurava o meu bando, minha família, pessoas que compreendessem ou ajudassem a me fazer entender o que estava acontecendo comigo, mas, que acima de tudo me restaurassem o sentimento de pertencimento. 

Eu procurei muito, mas não achei. E, por obrigação, me tornei o lobo solitário. De alguma forma ou de outra, eu tenho um dom (ironia) para ficar sozinha, um talento (ironia, de novo) para acabar com as minhas amizades, devido a eu ser como sou. Não é uma vida muito agradável, eu tenho que ficar mudando de grupo em grupo, de tempos em tempos, porque, uma hora ou outra eu serei banida. É questão de tempo.  Eu sei que o texto está longo, mas eu preciso explicar. Existe um famoso experimento feito com lobos criados em cativeiros e cães. Os cientistas colocaram a comida em um local que eles jamais poderiam alcançar e então observaram seu comportamento. O lobo não parou de tentar, ele não desistiu, mesmo que fosse impossível. O cachorro, após algumas tentativas, parou e olhou para o humano com aquela expressão de "me ajuda". Lobos não podem ser domesticáveis, o seu instinto é selvagem. Cães tem um pouco de lobo. Eu também. Eu não desisto mesmo quando tudo em mim aponta para desistência. Existe mesmo uma força de lobo dentro de mim que me impulsiona a viver, seguir em frente, mesmo que tudo esteja desabando. 

Eu não encontrei meu bando, minha matilha ainda, mas ás vezes eu entro na matilha de outras pessoas e é bom testemunhar laços familiares, conversas amigáveis, aquele ar de conforto e aceitação que a gente, como ser humano, sabe fazer tão bem. Eu gosto de observar, de fazer parte por um momento, mas depois eu vou embora. Nem sempre eu vou, ás vezes eu fico, mas, frequentemente a distância, o tempo ou minhas atitudes confusas fazem com que as pessoas me deixem. Muitas vezes penso que o problema sou eu, algumas vezes - ultimamente - percebo que não há nada de errado comigo, eu apenas sou diferente e isso assusta, incomoda, afasta. Eu me importo com isso... e ainda estou buscando meu grupo. Talvez eu nunca ache, talvez seja apenas um simbolismo, eu não sei. 

Eu tenho essa mania estranha de não desistir, de insistir, teimar, em não deixar a vida escapar tão fácil assim. Eu também nunca paro de tentar. Por isso, me identifico tanto com lobos. Eles são uma metáfora de tudo que aconteceu comigo de bom e de ruim, e acima de tudo são a certeza de que um dia eu vou ter de volta a sensação de pertencimento. 



sábado, 22 de junho de 2019

Essa sensação não é culpa sua




São 5:15, eu deveria estar animada para o dia de hoje pois vou conhecer uma praia nova. Eu gosto de praia, o sol, o barulho do mar e principalmente ficar observando as pessoas viverem suas vidas e seguindo em frente. Eu fico imaginando as histórias de vida delas, como se sentem e se alguma delas é como eu. Secretamente, eu espero que não porque ninguém merece ter que conviver com uma mente tão destruída quanto a minha. E então meu eu dissociado estraga tudo começando a pensar no quanto estou me sentindo vazia, sozinha e rejeitada por mim e por pessoas que eu gosto. É o suficiente para eu levantar de onde eu estiver e procurar algum conforto em várias doses alcoólicas. Estratégia errada, eu sei. Funciona na hora mas depois fica tudo mais escuro.

É claro que daqui a pouco eu vou levantar, colocar um sorriso no rosto e seguir a minha vida. Não digo que seja un fingimento mas sim uma tentativa. Todos os dias eu tento agir normalmente porque as pessoas ao meu redor estão cansadas, atarefadas e esse problema no fim das contas é só meu. Eu e meu eu quebrado e confuso. Eu saio dizendo a mim mesma que é isso que as rainhas fazem. Elas tomam decisões dolorosas e mantém a pose de força porque parecer frágil colocaria todo o reino em perigo. É necessária muita coragem para se manter de pé enquanto há várias feridas emocionais sangrando por dentro.

Eu tenho muito mais que depressão, mas conheço muitas pessoas deprimidas que dizem que se sentem mal pois a depressão é culpa delas. Isso é uma herança bem estúpida da idade média, do tempo em que o homem achava que deus criava tudo e que a ignorância predominava. O ser humano foi biologicamente feito para repelir o que é diferente, desconhecido, porque isso lhe traz sensações dolorosas sobre si mesmo e em vez de enfrentá-las preferimos nos isolar do problema e seguir em frente. Esse é o bom e velho mecanismo de negação.

Ninguém fala de culpa quando a pessoa pega gripe. Todo mundo sabe que foi um vírus e daqui uns sete dias tudo vai ficar bem. Ninguém julga sua cara de desanimo, o nariz escorrendo e a reclamação sobre a febre que faz o corpo doer. Mas se você fala que tem aids, câncer ou qualquer doença complexa, as pessoas julgam sim e falam que a culpa foi sua, que você foi irresponsável ou o mais comum no Brasil que Deus está te dando uma provação ou você esta pagando por algo ruim que fez na vida passada. É isso que acontece quando você fala que tem depressão e fica ainda pior se você falar que tem algo mais complexo e desconhecido. Eles podem falar que você está inventando, exagerando, sendo dramatico. Você se cala, se isola e isso te leva direto para o frio túmulo.

Eu sei bem disso. Às vezes sonho com meu túmulo. Mas eu decidi que ia tentar continuar respirando de todas as formas que eu pudesse e uma delas é dizendo a vocês que culpa não devia ser sentida quando você tem uma doença, qualquer que seja. A depressão é uma alteração química cerebral e pode ser corrigida por remédios e terapia ou qualquer tratamento cientificamente comprovado. Pode ter a ver com algum trauma, medo, morte de ente querido ou uma crise existencial,entre outros.E nenhuma dessas é culpa sua ou de alguém. Eventos, pessoas e sentimentos podem ter ajudado a levar você a esse estado mas não é culpa de ninguem. Culpa é algo muito pesado que deve ser reservado a erros. Ficar doente não é um erro. Ser ignorante também não, mas permanecer na ignorância é, porque a pessoa está escolhendo não mudar, não evoluir talvez por achar que a opinião da maioria é o "certo" ou achar que sabe de tudo e não precisa aprender. Mas quando se trata da mente, do cérebro e da consciência, essa caixinha a qual estamos todos presos, sempre haverá algo a se aprender, afinal a ciência ainda engatinha nesses assuntos.

Você também não precisa se envergonhar por ter um transtorno mental. Você não é menos que ninguém. Você é um ser humano em dificuldade e que precisa de ajuda e não tem nada de errado em ficar vulnerável e precisar de ajuda, afeto e companhia. Isso é da condição humana. Assim como também é humano ter preconceito, julgar e rejeitar tudo que é diferente porque essas coisas ferem o senso de normalidade. Todo mundo acha que existe um normal, um modo padrão como tudo deve ser, como agir e até como sentir daí vem novas descobertas de que a diversidade é que é o "normal". Ninguém gosta de admitir porque isso rasga totalmente o senso da normalidade forçando as pessoas a saírem de sua zona de conforto.

Pessoas como eu e você não deveriam se esconder, se calar ou fingir que está tudo bem. Assim nada muda. Mas a gente sabe que o medo é real assim como a morte. Eu acho injusto alguém só ver a opção de morrer e depois quem ficou dizer que a pessoa tinha escolha e foi fraca. Não foi fraca, nem forte, estava doente e ou não conseguiu buscar ajuda ou ninguém ajudou. A maioria das pessoas pensa "cada um com seus problemas" mas nós somos uma grande e complexa família portanto a dificuldade de um se torna a de todos. Se todo mundo começar a ajudar uns aos outros ninguém fica para trás.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

O monstro da depressão


Esse blog está começando a virar uma espécie de diário depressivo. Mas como não escrever sobre essas emoções me afligindo toda a madrugada? Todos esses anos roubados de uma vida que poderia ter sido diferente... Mas a vida é o que é e eu me sinto muito sortuda por nessa experiência ter conforto material, bons amigos e poucas dificuldades que possam me impedir de progredir ( miséria, fome, guerras por exemplo). Eu sempre penso que existem pessoas em situações mil vezes piores, agradeço pelo que tenho, reconheço minha sorte mas, vergonhosamente, a depressão me toma conta totalmente, especialmente na insônia. 


Aqui, na escuridão quebrada pela tela do celular, eu me sinto em paz, ouvindo os barulhos da cidade em meio ao silêncio da madrugada. Aviões, latidos longínquos, carros passando, meu marido respirando enquanto sonha, meu cachorro revirando na cama, meus gatos ronronando. Sons vivos... Eu imagino que estou morta. Completamente inexistente, envolta na escuridão final. Testemunho que a vida continua e segue muito bem sem mim. As pessoas sentiriam saudades no começo, pensariam sobre mim, tentariam entender a dor que carreguei quase a vida toda, mas logo elas seguiriam suas vidas e, com o tempo, eu seria a lembrança de alguém que elas conheceram e algumas amaram. O nosso futuro amargo é nos tornarmos apenas mera lembrança, uma recordação na memória ou na estante empoeirada de alguém. Nesse momento lágrimas escorrem em meu rosto, eu também tenho medo de morrer. O desconhecido, a insegurança, o capítulo final. Mas, ao mesmo tempo, parece uma ideia benéfica para todos ao meu redor. Sem mais preocupações sobre meu estado emocional, sobre meus pensamentos suicidas, minhas autolesões ou a quantidade excessiva de alcool e remédios que venho tomando para aplacar a dor. Meu terapeuta não teria mais que se esforçar para encontrar um alívio ao meu sofrimento. Minha psicóloga teria um paciente a menos para se preocupar. Minha família não se preocuparia pois eu estaria morta, inexistente. Eles saberiam o que aconteceu comigo em vez de imaginar que eu posso me matar a qualquer hora dessas sem querer. 

Eu não gosto de viver assim. Não foi minha escolha. Eu fico aqui pensando como deve ser melhor ter problemas comuns, sabe? Eu acho maravilhoso ouvir os problemas das pessoas. Eles parecem plausíveis, comuns. Mesmo a pesssoa com cancer avançado e que vê a morte bem pertinho dela parece bem mais resolvida emocionalmente do que eu, ao menos ela decidiu enfrentar com algum otimismo e coragem...

O mal da depressão é esse: ninguém consegue enxergar que você sangra por dezenas de cortes profundos em sua "alma". É algo tão específico, individual e subjetivo. Parece que você está em um lugar aonde ninguém pode te alcançar. Onde você não consegue se agarrar às mãos que se estendem a você... Problemas normais... Casamentos ruindo pela falta de tempo de um cônjuge, doenças dolorosas que podem ser tratadas, perda de emprego, estresse elevado no trabalho... Eu ouço as pessoas chorando ou sorrindo com todos esses problemas e fico em paz por saber que elas seguem em frente e encontram caminhos para melhorar suas vidas. Todo mundo tem um problema, nem todo mundo pode resolvê-lo. Você só muda o que aceita... Será? Eu aceito minha dor emocional e faço tudo o que está a meu alcance para ela diminuir, e aqui estou eu. Uma vida quase toda sendo assombrada por dores terríveis. 

Eu não quero parecer uma vítima. Isso não seria justo da minha parte. Eu sou o que sou e sou limitada a minha biologia e estrutura cerebral. Mas minha consciência ou "alma" está cansada de testemunhar todo esse mar de dor dentro de mim. Não pode ser visto, nem tocado, apenas sentido e apenas por mim. Eu me afogo cada dia mais e mais em dor existencial insuportável. Quer dizer, eu aguento. Aguento calada, coloco uma maquiagem no rosto, uma roupa bonita, um meio sorriso e digo a mim mesma que eu aguento. Que é isso que as  rainhas fazem. Elas suportam o peso do manto e da coroa com desenvoltura, braveza e ousadia. Elas não podem parecer frágeis. E nem eu. Eu fui inserida nessa luta então permanecerei de pé con alguma dignidade. Até quando? Eu não sei. Mas já tenho medo de que essa guerra esteja perdida... 

Eu penso na minha avó. Eu não desejo morrer antes dela. Ela ficaria péssima. Eu a amo demais para lhe trazer esse tipo de dor mas será que minha mente entende isso? Ou a dor já deturpou a racionalidade? Porque sinto que deterioro dia após dia. Eu não gosto de ter todos esses problemas emocionais. Eu queria viver minha vida com coragem e resiliência. Mas eu não consigo. Eu acabo perdendo para mim mesma. Fragilizada, sentindo a solidão obscura, assustada, vazia e patética. Sinto vergonha de estar assim e também culpa. A maioria das pessoas não compreende e nem tenta, pois tem a falsa crença de que depressão é escolha, falta de vontade, falta de um Deus e que basta ter pensamento positivo ou arrumar o que fazer. Eu trabalho, faço as tarefas de casa, tenho muito o que fazer. Você me vê sorrindo, brincando, flertando, mas não imagina o quão quebrada e inútil me sinto por dentro. Eu não posso demonstrar ou serei julgada. Ouvirei dez mil conselhos sobre como "curar" a depressão ou um sermão sobre como minha vida é ótima e eu não devia reclamar, ouvirei que devia superar pois já vivo há muitos anos assim ou então serei ignorada e excluída pois alguém tem medo que eu surte, mate alguém ou ache que seja contagioso, quem sabe uma psicopata. Diante disso, melhor calar. Mas acho que um dia as pessoas tem de evoluir e ver que a depressão, transtornos mentais em geral são doenças como as físicas. Ninguém escolheu mas todos tem de lutar contra monstros sugadores de energia e assassinos dentro de suas próprias mentes e, como se não fosse o bastante elas tem de funcionar socialmente e lidar com rejeição, julgamentos e culpa. 

Se eu fosse deixar um legado, uma mensagem para ser lembrada é que o ser humano tem algo incrível dentro de si. Ele não sabe mas é um herói - um herói de si mesmo - e tem um poder grandioso chamado empatia. Se todo mundo pudesse exercer, viveríamos muito melhor, mais conectados uns aos outros. Isso salvaria milhões de vidas. Minha única esperança que restou é que a sociedade cada vez mais vai perceber esse poder e utilizá-lo. A compaixão também. Compaixão por si e pelo outro. As duas caminham juntas e habitam todo ser humano consciente. Espero que todos possam acessa-las em sua completude um dia.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Sobre sentir demais




Era madrugada quando eu senti as lágrimas correndo em meu rosto. Minha cabeça latejava, o gosto de álcool subiu em minha boca e a escuridão parecia me engolir. Eu me culpava por não estar me sentindo feliz, plena e satisfeita. Eu deveria estar feliz. Eu consegui tudo o que eu sempre quis, ao menos, tudo o que realmente importa, mas o vazio vinha profundo e intenso, tão pesado que era quase concreto. Era como se um fantasma me assombrasse com promessas de que eu jamais poderia me sentir satisfeita na vida. Eu não fui feita para isso (a vida), eu sinto demais. Tudo para mim é demais quando se trata de sentimentos, é quase como se eu fosse possuída por eles. Se eu amo, eu amo demais, se odeio, odeio demais, se eu me importo, me importo demais e se eu perco interesse, perco de vez. Para algumas pessoas isso parece vantajoso, afinal deve ser muito bom sentir amor demais. Mas eu nunca vi muita vantagem. Eu estou sempre quebrando a cara, me iludindo e fazendo o papel de boba. Não estou querendo me fazer de vítima, mas é apenas um desabafo de quem não aguenta mais...

Eu tento disfarçar todas as coisas que eu sinto em demasia e falho miseravelmente. Infelizmente, eu nasci com essa condição e parece que nada do que eu faça melhora, apenas atenua em alguns momentos. Eu acordei as 2:30 da manhã, chorando e com vontade de desaparecer devido ao peso excessivo de sentir demais. Eu não queria estar sentindo o que estava sentindo, mas parecia que eu era obrigada, quase uma refém das minhas emoções exageradas. Eu me culpei e me critiquei por não conseguir ser uma pessoa melhor, por não conseguir agir melhor, por não conseguir esquecer como as outras pessoas. Eu imagino que elas deitem a cabeça em seus travesseiros, fechem o olhos, pense um pouco em algum assunto, e durmam tranquilamente. Sem os pesadelos que me assombram durante a noite, das minhas emoções me perseguindo e me machucando. Eu invejo as pessoas que sente raiva, ódio ou qualquer outro sentimento em um momento e alguns dias ou horas depois aquele sentimento já diminuiu ou foi resolvido. Comigo, sempre fica no mesmo nível.

Quem sente muito, se machuca demais. O tempo todo. Quando há uma folga é um verdadeiro alívio, pois eu começo a me sentir uma pessoa comum, sem tantas preocupações, apenas vivendo minha vida, minha alegria e minhas dores, mas a estabilidade emocional nunca dura tempo o suficiente para eu me acostumar, e me vejo assaltada por todos os tipos de emoções em níveis elevados. Só hoje - e são apenas 11 horas da manhã - eu já senti dezenas de sentimentos diferentes em níveis que me esgotaram e me deixam a beira de um surto.

É claro que é muito bom amar e sentir-se exageradamente amado, mas isso é quando é real. Geralmente, meu cérebro emotivo aceita migalhas (ou inventam coisa onde não tem), as mesmas migalhas que eu aconselho a todas as pessoas que eu conheço a nunca aceitarem. Pessoas não merecem migalhas de afeto, carinho e amor. Elas merecem o sentimento completo, real e puro. Mas eu... ah, eu vim emocionalmente danificada. Mesmo tentando criar uma personalidade forte e decidida, ainda sou traída pela minha própria biologia que insiste que eu devo sentir tudo em demasia, que eu devo ter altas expectativas e que tudo se resolve com qualquer migalha de afeto. Eu fui feita para viver procurando carinho, atenção e amor em qualquer pessoa que eu conheça e crie o menor vínculo, qualquer coisinha. Eu fico cansada desses altos e baixos, de todas as vezes que eu sou usada, que sou feita de boba e que me enganam, no fim eu sempre descubro que o afeto tinha algum interesse ou que eu nunca signifiquei nada. E lá vem a dor, em níveis altíssimos. Uma dor insuportável que eu gostaria de morrer para nunca mais sentir.

Minha inexistência parece sempre a melhor opção, mas eu sei que esse é meu cérebro depressivo buscando uma solução rápida e definitiva. "Suicídio é uma solução permanente para um problema temporário", meus amigos, terapeutas, minha mente e as pesquisas no google sempre me lembram dessa frase, mas e se o problema for permanente? Eu fui permanentemente danificada emocionalmente, infelizmente não existe uma cura, não tem conserto, eu só consigo controlar ás vezes e depende muito do que está acontecendo. Esse é meu jeito de viver, e eu não gosto porque o nível de dor que sinto não compensa a parte boa.

Então eu resolvi escrever em uma tentativa desesperada e patética de tentar compreender os sentimentos que me perturbam. Eu continuo sem entender. Eu sei que não existe um motivo para eu ser assim, é assim e ponto final. E é muito legal as pessoas me dizerem que eu sou forte e que me admiram por eu lidar com esse meu problema de instabilidade emocional, mas que escolha eu tenho? Eu sou forçada a seguir em frente e lutar contra isso. Essa luta eu nunca escolhi, eu fui escolhida.

Mais uma vez, eu estou aqui, sentindo um vazio enorme, uma tristeza sem fim, e a falta de perspectiva. Mais uma vez, não consigo enxergar meu futuro. Eu sinto que uma hora ou outra eu irei estragar tudo e as pessoas vão descobrir a fraude que eu sou, pois, mesmo que agora eu consiga ver um ser humano no espelho, eu ainda me pergunto se existe um monstro dentro dessa minha capa de humano. Porque é assim que eu me sinto. Eu deveria estar feliz sim. Eu deveria estar rindo, amando as pessoas a minha volta, tendo um relacionamento maravilhoso com meu companheiro, me divertindo com meus animais, mas eu simplesmente não sou capaz e acabo sendo um problema na vida deles. Eu não consigo e nem mesmo tenho chance de entender o porquê.


segunda-feira, 10 de junho de 2019

As aparências que enganam



Hoje eu assisti ao filme "The Elefant Man" do diretor David Lynch (que eu amo!). O filme é baseado em uma história real de um homem chamado John Merrick que sofria de uma doença congênita que lhe causou diversas deformidades. Eu fiquei bastante impactada em imaginar que uma pessoa realmente sofreu com uma doença como essa, e o filme transmite bastante desse sentimento desconfortável. 

Eu queria viajar um pouco aqui sobre o quanto as aparências importam na sociedade como um todo. No filme, o homem nem era tratado como ser humano, ele era explorado por um homem que dizia ser seu dono e o exibia nos fundos de uma casa após ser proibido de exibi-lo no circo. Um homem o tratava como objeto, uma coisa feita com o único propósito de trazer lucro. John era maltratado e vivia em um lugar escuro, se alimentando precariamente e sem afeto algum.  Nós não precisamos ir muito longe para perceber que em menor ou maior escala isso ainda é muito frequente. Algumas pessoas usam os problemas físicos ou emocionais das outras para lucrar em cima disso ou simplesmente por perversão. Gostem ou não, algumas pessoas simplesmente se divertem com o sofrimento dos outros. 

Eu lembro de uma garota na escola que tinha uma doença genética, não possuía cabelo nem pelo nenhum e usava uma peruca muito bonita - por puro medo de zombarem dela. Ninguém dizia que era uma peruca e ela sofria de um medo terrível de ser vista sem ela. Eu notava que ela fazia de tudo para ser aceita, tentava se encaixar entre as garotas populares porque assim não atraía atenção para ela, mas, por algum motivo ela se sentiu a vontade de me mostrar como ela realmente era sem os cabelos. Eu não vi diferença nenhuma além da física, continuava sendo a mesma pessoa. Eu nem sequer tinha curiosidade de saber como era, mas fiquei comovida com o sofrimento emocional, pois as pessoas (adolescentes na época) não tinham a menor compaixão, e, eu sei que zombariam de algo que a fazia sofrer muito. Eu mesma passei por isso muitos e muitos anos da minha vida por ser retraída e não ter o visual requerido pela sociedade. Apesar de agora estar me "encaixando" (mas não para ser aceita), eu ainda sou constantemente julgada por não falar muito ou por não saber me impor, apesar de estar aprendendo, mas ninguém sabe o que eu sofri antes delas me conhecerem, assim como ninguém sabia o que aquela garota passava quando eles riam dela. 

Voltando ao filme, um médico viu John e ficou interessado em primeiro momento em tirá-lo daquela condição sub-humana, mas, com o passar do tempo, inconscientemente, ele fez do homem uma nova vitrine, dessa vez para a alta sociedade, pois, como o caso de John era raro, isso trouxe fama e prestígio ao médico, massageando seu ego e, ao mesmo tempo, dando à alta sociedade algum entretenimento, afinal fingir ser uma pessoa caridosa era estimado á época. Em um momento do filme o médico se pergunta diante de sua esposa (que tentava justificar suas atitudes por não querer admitir que seu marido podia ter um lado sombrio): "Eu sou um homem bom ou mau?" pois começa a se questionar que diferença havia entre ele, um médico, da alta sociedade para o ex-"dono" de John, um homem simplório , abusivo e que só pensava em lucro. Naquele momento, de fato, os dois se igualaram, porque eles se tornaram então humanos, e um humano é bom e ruim, mas é aí que entra algo muito interessante: a consciência. O médico foi abatido por culpa e tentou modificar a intenção com que estava ajudando John. E é isso o que mais me comove no ser humano. Nós estamos atados a um corpo, um cérebro, comportamentos, hormônios e etc, mas a consciência é algo muito maior, maior do que tudo isso, e quando você a utiliza, descobre ter um poder imenso. Todas as pessoas, incluindo eu e você, temos traços tóxicos, uma hora ou outra. Negar nossos defeitos, é o mesmo que deixá-los livre para ser o que são, eles não irão mudar porque a gente acha que não é um narcisista ou um idiota em determinados momentos. A gente é o que a gente é, mas quando você aceita que tem esse ou aquele traço tóxico, a consciência emerge em você o poder da mudança. Calma, não é um papo new age, nem esotérico, é apenas psicologia. Você só muda o que aceita. E é lindo assistir isso em um filme ou ver na vida real, eu mesma passei e ainda passarei por muitas dessas transformações, não podemos ter medo de admitir que somos "maus" em determinado momentos, mas sim compreender essa maldade e orientá-la para a luz. 

John Merrick só queria ser visto como um homem, assim como muitas das pessoas que sofrem bullying ou são isoladas por determinado problema mental ou físico. Imagine viver temendo ser visto ou ouvido pelos outros porque você sabe que jamais será compreendido, e ainda irão rir de você?... Eu consigo imaginar porque sofro de um transtorno mental grave e quando as pessoas descobrem, muitas delas se afastam, por puro medo ou ignorância. Elas não acreditam que eu seja capaz, não levam a sério o que eu falo e me fragilizam acreditando que estão fazendo o melhor para mim (o médico fez isso com John). Então eu meio que sei como essas pessoas se sentem, eu mesma fui isolada e zombaram de mim por muitos anos. Mas tudo o que um ser humano quer é ser visto como um ser humano, ter afeto, carinho, respeito, amor, dignidade. Ninguém quer ser uma piada, uma vitrine, um monstro do qual os outros tenham medo. A deformidade dele era apenas física, mas seu interior era rico e complexo. Mas pessoas são pessoas, e igual ao filme, as vezes elas precisam de tempo para perceber que o interior vale mais do que o exterior - algumas jamais percebem. 

Por fim, John, em determinado momento, rodeado de pessoas curiosas (crianças e adultos) que riam e apontavam dedos para a deformidade dele, com expressões de horror e nojo, acaba gritando que ele não é um animal, ele é um ser humano... um homem. Foi a sociedade julgadora que eu vi ali. A sociedade que só aceita pessoas em determinado padrão e se você não for como eles querem, então será alvo de escárnio, perversão e muitas vezes ódio. As pessoas temem o que elas não compreendem e se elas aceitassem isso, a humanidade podia progredir mais rápido. A compaixão requer que você tenha mesmo medo, mas queira compreender, queira dar um passo a frente, quando paramos no medo então nada progride, tudo continua na escuridão. 

Esses eram os assuntos que eu queria falar sobre o filme, claro que tem muito mais, e eu poderia ficar horas aqui falando de David Lynch porque eu acho ele o máximo, mas eu vou restringir minha opinião para que você assista o filme ou leia sobre John Merrick, garanto que vai fazer você pensar na sociedade de hoje. Não mudou muita coisa. 




segunda-feira, 3 de junho de 2019

A robótica, a inteligência artificial e o ser humano

Imagem instagram @michelesbb

Eu recomendo muito a leitura de "Eu, Robô" (sim, aquele do filme), pois dá uma visualização bem realista de um futuro próximo da humanidade onde robôs se tornarão o centro de tudo. E, apesar de isso ser incrível do ponto de vista tecnológico e científico, qual seria o impacto disso no psicológico do ser humano? Se você acabou de chegar aqui saiba que a minha maior paixão da vida é a psicologia, por isso quase todas as postagens giram em torno da mente, do cérebro e dos comportamentos e, por eu acabar quase filosofando no assunto você pode sentir que está viajando junto comigo. A intenção é provocar uma reflexão em você. 

Eu acho incrível a evolução da tecnologia de quando eu era pequena até hoje, foi tudo tão rápido que nem parece real. Eu quase não consigo crer que existem robôs parecidos com seres humanos inclusive na forma como eles aprendem, a tal da learning machine que até hoje que não entendi direito parece ter vindo para ficar. Mas, se a inteligência artificial promete facilitar a vida do ser humano inclusive tomando-lhe algumas funções, qual seria o impacto em nosso psicológico? Eu não preciso ser psicóloga, nem psiquiatra para imaginar que não será tão simples.  

Certa vez, eu assisti a um documentário na Netflix chamado Dark Web (Rede Sombria) onde tinha uma família de japoneses (eu acho) que comprou um robô. Na verdade, o robô era uma espécie de melhor amigo, principalmente da mãe. Ela passava quase vinte e quatro horas ao lado dele e mesmo sendo casada e tendo filhos todos pareciam emocionalmente distantes uns dos outros, preferindo a tecnologia ao contato humano. Parece que, com tanta tecnologia que distrai, o ser humano tende ao comportamento de evitação. O que estamos evitando? Eu arrisco dizer que evitamos a nós mesmos, nossa finitude e, consequentemente, os outros. Se você for analisar profundamente o outro não passa de um espelho para nós, e não gostamos de ver nossos defeitos, sombras e traços repugnantes, e muito menos gostamos de lembrar que vamos morrer. É preferível fugir destas questões que tentar compreendê-las. Eu não acredito que isso seja nossa culpa. A tecnologia evoluiu muito mais rápido do que nossos cérebros possam acompanhar. Nós sabemos muito sobre muitas coisas exceto sobre nós mesmos porque não somos incentivados a fazer isso. Parece algo estranho e sem sentido, mas tudo começa quando sabemos quem somos, quais nossos defeitos e qualidades, e principalmente nossos valores. Sem isso, tendemos a evitar qualquer sentimento e interação social. 

Eu percebo isso com o celular, para mim, ele se tornou quase uma extensão do meu braço, e para onde eu vou eu o carrego comigo. Um dia decidi prestar atenção e percebi que eu usava o celular para evitar contato visual, conversas e me distrair dos meus próprios pensamentos e sentimentos - que geralmente são intensos e confusos. Aquilo me distanciava de mim mesma e das outras pessoas. Mas quase ninguém parece perceber isso. E vejo muitas pessoas sentadas em mesas que, em vez de conversarem entre si preferem ficar olhando o celular. A tecnologia é algo brilhante, feita para facilitar e melhorar nossas vidas, mas sem equilíbrio e autoconhecimento ela acaba nos "escravizando".

Pelos noticiários acompanhamos a cada semana uma evolução diferente da robótica. Robôs capazes de aprender com o ser humano, robôs que irão substituir o ser humano em algumas funções e até mesmo robôs feitos para ter um relacionamento com as pessoas (amor, amizade, etc). Isso traz uma série de emoções a tona como medo, raiva, preconceito, admiração, negação. Algumas pessoas acreditam que a robótica pode salvar o mundo, mas quem salva o ser humano dele próprio? Ser substituído por uma máquina pode emergir sentimentos fortes como rejeição, abandono e até mesmo inutilidade, por outro lado, haverá uma forte dependência do homem com a máquina onde não conseguirá fazer nada ou quase nada sem ajuda de uma delas, isso leva a maior isolamento para consigo mesmo e com outros. Será que o futuro do ser humano é se tornar uma ilha? 

Além disso, existe um dilema psicológico envolvendo tudo isso. Se a máquina aprende com o ser humano, lhe toma funções e se torna superior ao homem...será que isso não traria a tona uma grave crise existencial coletiva?

Eu não estou dizendo que sou contra a evolução da robótica, eu sou muito a favor, porque a vida do ser humano tem de ser facilitada, porém isso deveria ser feito com bastante cuidado do ponto de vista psicológico, para não prejudicar tanto as relações humanas como já tem sido. E você o que acha? 

 




domingo, 2 de junho de 2019

O valor da liberdade



A viagem de hoje é sobre liberdade! Se minha vida pudesse ser resumida em um único valor seria esse. A liberdade de ser, fazer, falar e pensar o que eu quiser, sem medo de preconceitos e julgamentos, mas com responsabilidade. Eu não acredito que seja possível a liberdade total porque, de certa forma, estamos limitados por nosso corpo e nosso cérebro, e também porque vivemos em sociedade o que significa que todo mundo uma hora ou outra vai ter que ceder uma parte de sua liberdade em prol do bem comum, mas, mesmo com todos esses obstáculos eu sempre acreditei que esse fosse o valor mais importante da vida.


Eu comecei a questionar tudo desde muito cedo. A primeira psicóloga que fui aos onze anos sempre me dizia que eu não parecia criança, nem adolescente porque tinha o pensamento muito complexo - e lia Shakespeare. É claro que eu não escolhi ser assim, as circunstâncias da minha vida me forçaram a adaptação e minha mente começou a questionar sem parar. Dentre esses questionamentos surgiu a sensação de estar presa. De certa forma, eu estava presa com algum transtorno mental que limitava quem eu era, o que eu fazia e o que eu pensava. Eu ficava sem controle das minhas emoções, não tinha uma identidade e sofria com delírios e alucinações, entre outros sintomas. Era como ser refém de um criminoso invisível que morava dentro do meu cérebro. Eu sofria e fazia sofrer, sem nenhuma intenção. Aos olhos dos outros eu era estranha, maluca e ás vezes cruel, mas, dentro de mim, era como ter alguém empurrando uma arma na minha cabeça me obrigando a fazer coisas que nem sempre eu queria. Então, minha meta se tornou escapar disso de alguma forma e enfim poder ser livre. 

Eu também queria ficar livre do medo. Depois de sofrer sucessivos traumas, eu desenvolvi medo de tudo, principalmente se envolvesse contexto social. Eu tinha pavor de ser julgada, de virar piada, de descobrirem que eu era uma fraude (era assim que eu pensava sobre mim), de descobrirem que eu era um "monstro" disfarçado de humana. Eu praticamente vivia a minha vida para seguir as regras e fugir de dedos sendo apontados para mim, eu estava presa dentro de mim. Isso não era liberdade. Se você sente medo de ser, fazer ou falar o que sente-pensa, porque teme a consequência, então não está sendo livre. 

Ser livre tem a ver com ter escolhas e ser responsável por elas. Se formos analisar, a maioria das pessoas fala que é livre, mas tem medo da responsabilidade. Por exemplo, eu, tendo um transtorno mental grave, que prejudica meu relacionamento comigo e com os outros, tenho duas opções: ou eu busco tratamentos e luto da melhor forma possível ou eu não faço nada e deixo isso me levar sem controle. Claro que muitas pessoas vão dizer que só existe a primeira opção, mas a liberdade envolve também escolhas ruins, a chave aqui são as consequências. Se eu escolho a opção mais lógica, eu posso até ter muitas dificuldades, mas eu não estarei sozinha porque as pessoas tendem a apoiar quem se esforça e demonstra arrependimento ou vontade de melhorar. Se eu escolho a opção mais "fácil" (não fazer nada), provavelmente meu futuro seria ficar sozinha ou dar muito trabalho para as pessoas, ser considerada cruel, difícil, e o mais importante talvez eu me sentisse péssima comigo mesma e ainda mais presa com um assassino no meu cérebro. De qualquer forma, são escolhas. E isso é liberdade. Você ver as opções e escolher uma delas, e depois que escolheu arcar com as consequências, ser responsável. 

As pessoas costumam relacionar liberdade com fazer o que quer sem pensar no amanhã, falar o que quer sem pensar nas consequências, e é claro que sempre tem essa opção, mas não devemos limitar algo tão amplo a apenas isso. Ser livre significa que eu tenho o poder de modificar ou não a minha vida, que eu não estou sendo guiado por outras pessoas ou outras forças, que o único juiz das coisas que digo e faço sou eu mesmo. Ser livre significa não permitir que outras pessoas te censurem ou te julguem pelas suas escolhas porque você sabe muito bem sua história e o motivo de ter feito essa escolha. Ser livre é deixar que o outro seja livre mesmo que você discorde com as escolhas dele.

Então eu descobri que meu sonho não era alcançável em sua totalidade porque a liberdade vem com um peso gigantesco de responsabilidade e ás vezes isso significa restrição. Qual parte da minha liberdade irei abrir mão hoje e pelo quê? Sempre que se deparar com essa questão pense no que beneficiaria você e o outro, e o que é melhor para o bem comum. Por exemplo, eu moro em uma casa e tenho um cachorro. Ele chora e late muito de madrugada. Isso incomodava um dos meus vizinhos, enquanto o outro nem se importava e gostava do cachorro. Em vez de conversarmos, começamos a ameaçar uns aos outros por cima do muro. Isso é infantilidade, mas foi uma escolha infeliz que eu fiz, e eu sofri as consequências de me sentir mal e ficar estressada a toa, além de me sentir uma imbecil completa (culpa e vergonha). Um dia, depois de bater boca com ele, eu fiquei com medo de o cachorro sofrer as consequências por causa disso (discutir agressivamente com as pessoas não é a melhor opção). O medo fez com que eu ficasse em constante alerta todos os dias. Qualquer barulho eu achava que era ele. Certo dia, o vizinho veio até minha casa e pediu desculpas, eu o ouvi, raciocinei e também pedi desculpas. Foi então que ele explicou que a vó dormia na casa da frente e ela acorda com qualquer barulho. Isso eu posso entender, eu tenho vó e eu também acordo com qualquer barulho. E assim eu escolhi dormir com o cachorro dentro de casa e, indo ao veterinário, eu descobri que ele sofre de ansiedade de separação grave, por isso ele fica assim quando está sozinho a noite, lá fora (ou seja, escolher ouvir o vizinho, me fez descobrir que meu cachorro estava sofrendo). Eu tinha opção de não fazer nada, deixar ele latindo, e nem me importar, como muitas pessoas fazem, mas quando exerci a empatia eu vi que não tinha essa opção. Eu sou bastante orientada pelo valor da liberdade e isso significa deixar o outro ser livre também, livre para dormir tranquilamente sem um cachorro latindo as 3 da manhã, mesmo que isso tenha significado perder alguma liberdade dentro da minha casa. Mas se a minha opção foi ter um cachorro, é claro que eu poderia ter algum problema com vizinhos, e isso é liberdade. Eu escolhi, mas fico "presa" nas consequências, a questão é poder escolher onde ficar "preso" e pelo quê. 

Outro exemplo, ás vezes você tem um amigo que gosta muito, mas que não tem muita compatibilidade de ideias com você, vamos supor que esse amigo goste de piadas machistas e tende ao preconceito. Você tem que compreender primeiro até onde seu limite aguenta, aceitar que as pessoas tem essa opção e escolher se quer essa pessoa na sua vida ou não. É um direito seu se afastar de pessoas sem afinidade com você. Nós toleramos até algum nível. Isso é liberdade. Eu escolhi me afastar, e sei que isso significa não ter mais a parte boa da amizade, mas meu valor é maior do que isso, e mesmo com o coração partido é melhor para os dois. 

A liberdade é dolorosa, mas é maior inclusive que a vida - na minha visão - pois muitas pessoas preferem morrer do que perder a liberdade, como quando alguém que defende uma causa é morta por outros que querem silencia-la. Sim, ela perdeu a vida, mas a liberdade dela a fez plantar seus valores em outras pessoas e, por isso, de certa forma, a pessoa continua viva através de outras que levarão a frente seus valores. Não se mata alguém livre. Pense sempre o que te faz sentir livre e tente viver sua vida através disso depois me conte como se sentiu. 




terça-feira, 28 de maio de 2019

Sobre julgamentos



Se existe algo mais desagradável do que ser julgado ou julgar alguém eu desconheço, apesar de, muitas vezes, eu fazer isso (e fico me odiando depois). É claro que, com nosso cérebro social estamos fadados a julgar eventos, pessoas e a nós mesmos, porém, eu ainda acredito que sempre podemos fazer melhor. Eu não sou apenas meu cérebro, hormônios e emoções, eu sou uma coleção de experiências, um quebra-cabeça que eu mesma devo montar, não estou presa a minha constituição física ou mental. A gente sempre é mais do que pensa ser. 

Eu já fui muito julgada na minha vida - e acredito que todo mundo foi -  principalmente pelas coisas que eu falava ou escrevia. Esse já é meu quarto ou quinto blog, pois, sempre, uma hora ou outra eu acabo me afetando com o que falam sobre mim. A verdade é que a sociedade é bem exigente e egoísta. Todo mundo quer que sejamos perfeitos enquanto eles podem continuar cometendo os mesmos erros de sempre. Eu nunca achei isso justo. Eu me sinto presa em uma sociedade que condena erros, apesar do discurso bem elaborado de que "todo mundo erra". Uma sociedade que dificilmente perdoa, que prefere apontar o dedo e culpar o outro em vez de analisar a si mesmo. Eu já fui assim porque foi isso que me ensinaram na vida, mas quando você encontra o caminho para si mesmo percebe que nem tudo que é coletivo é bom, aliás muito pouca coisa o é. 


Hoje em dia o julgamento é muito comum por causa da internet e as redes sociais. É como se as pessoas precisassem expor suas opiniões. Uma necessidade básica, eu diria, mas a verdade é que, apesar de não existir nenhum problema em expor o que você pensa, você não precisa, muito menos se for para julgar outras pessoas. Mas vamos fazer uma distinção aqui: uma coisa é você estar em um fórum, comunidade ou página destinados a discussão (aqui você deve e pode julgar determinados assuntos), mas outra coisa é perfil pessoal ou páginas de entretenimento, aí você deveria pensar um pouco. Muitas pessoas, como eu, criam perfis e páginas para se distraírem de seus problemas, que geralmente são graves, eu, pelo menos, odeio me estressar com as opiniões rígidas, discussões, brigas e julgamentos na internet. Eu quero escapar da realidade por um momento, mas me sinto mais presa nela. Muitas vezes, essas pessoas estão passando por momentos difíceis, como a morte de um ente querido, problemas de saúde, crises de saúde mental, portanto seu "importantíssimo" julgamento disfarçado de "opinião" não seria de grande ajuda, pois a) pode deixar a pessoa se sentindo culpada ou b) pode afundá-la ainda mais na crise (tem gente que morre por causa dessas coisas). Na dúvida, não fale nada (exceto se o espaço for reservado para isso ou for algo contra você). Simples assim.

A sociedade ainda não entendeu o que significa empatia e é por isso que eu considero um super poder humano. Empatia não é meramente se colocar no lugar do outro, mas sim, por um breve momento, se sentir o outro, compartilhar de seus sentimentos e emoções. Eu não consigo ver aonde um julgamento entra nisso. Não devemos ser juízes da vida e da escolha do outro, mas sim, de nós mesmos. Porque o outro me incomoda? Porque eu tenho essa necessidade de falar o que penso o tempo todo? Porque eu não consigo dosar minhas palavras? Essas são as questões que devemos fazer a nós mesmos, sempre sobre nós e nunca sobre o outro. Cada pessoa é um mundo a parte, com sua história de vida, sua personalidade, seus defeitos e qualidades e suas escolhas pessoais. Eu tento não julgar, mas as vezes eu falho, e não me orgulho disso, não me sinto superior e nem acho que estou "certa". Do meu ponto de vista estou certa, mas do ponto de vista do outro ele está certo. Temos que exercer a tolerância uns com os outros e o mínimo de interferência na vida alheia (exceto se a pessoa estiver sendo abusiva ou machucando fisicamente outros - e ainda assim você não deveria julgar). 

Acima de tudo, você deve manter o seu auto respeito e jamais deixar que outras pessoas julguem suas escolhas, suas opiniões e seus erros. Não existe ninguém 100% perfeito, e somente essa pessoa teria o privilégio de julgar os outros (e eu acho que ela escolheria não fazê-lo). Um juiz é aquele que analisa as provas de todos os lados, raciocina e usa seu senso crítico para aplicar uma pena justa - ao menos, na teoria. Portanto, julgamentos baseados na nossa única opinião não estão tão certos assim, precisamos primeiro analisar o outro se queremos mesmo elaborar um julgamento ( e de novo, não estou condenando que você dê sua opinião sobre alguém, só quero provocar uma reflexão), eu tenho quase certeza que se você enxergar o outro como alguém igual a você, analisar a história e a experiência do outro, vai se sentir bem menos propenso a julgar, mas também não se martirize se o fizer, somos humanos, portanto não somos perfeitos.