segunda-feira, 29 de abril de 2019

O enigma da morte



Esses dias eu (finalmente) assisti ao clássico "O Sétimo Selo" de Ingmar Bergman. Não irei fazer uma crítica sobre o filme, mas sim, uma reflexão. Para resumir, trata-se de uma história sobre um homem fugindo da morte, tentando ludibriá-la e também compreendê-la. A película toca em questões como o vazio existencial, o amor, o medo da morte e, claro, a crença em um deus. Certamente, um filme incômodo, muitas vezes você sente vontade de não continuar assistindo devido aos sentimentos de ansiedade, medo e negação da morte que surgem durante o enredo, mas, se você ultrapassa tudo isso consegue ver a complexidade e beleza do filme. 

A morte sempre foi algo que chamou minha atenção. Eu acho curioso em como um dia as pessoas estão aqui, respirando, vivendo, reclamando do tempo, e de um minuto para outro, simplesmente desaparecem, tornando-se um corpo inerte, entregue aos processos biológicos de decomposição. Antes havia vida, de repente não há nada. Para onde foi a vida? Ou seria tudo uma grande ilusão? A verdade é que ninguém sabe, ninguém tem certeza, mas todo mundo compreende que é algo concreto e definitivo. Ninguém volta da morte, ela é a escuridão final. 

Por muitos anos da minha infância e adolescência eu convivi bem perto da morte. Semelhante ao filme, eu a sentia por perto, e considero que, muitas vezes, joguei xadrez com ela, olhei-a nos olhos e desafiei seus dentes amarelos, mas, de alguma forma, estou aqui, e ainda me parece estranho continuar respirando depois de tudo o que passei, talvez por isso o assunto morte tenha se tornado tão importante para mim. Eu quero chegar o mais próximo possível de compreendê-la, e acima de tudo, aceitá-la. Por mais que a gente saiba que vai morrer, no fundo, nunca aceitamos, deixamos para pensar depois, desviamos do assunto, fingimos que ela não existe, então alguém morre ou nos deparamos fisicamente doentes e ali está ela nos fitando com olhar vazio e sarcástico como se dissesse "ninguém me escapa e me ignorar não vai tornar mais fácil". 

A primeira experiência brutal que tive com a morte foi com meu avô. Ele era alcoolista e morreu de hemorragia no esôfago, além de ter uma cirrose há algum tempo e, mesmo assim, continuar bebendo. Eu estava em um momento de vida de ascendência, eu tinha um trabalho, alguns amigos reais e um relacionamento amoroso estável. Eu começava a sentir o gosto de uma estabilidade a qual eu nunca tive a chance antes. Estávamos separados há mais de dez anos. Ele decidiu ir embora quando seu alcoolismo ficou insustentável. Eu sentia saudades dele porque me sentia ligada emocionalmente a ele, mesmo com todos os seus problemas. O amor que emanava dele era genuíno e ficava escondido bem debaixo de toda escuridão dele, mas, de alguma forma, eu sabia que estava lá, eu sentia e ele não o escondia de mim. Foi difícil ficar longe dele, mas meu cérebro achou um jeito de negar essa realidade até que a notícia chegou. A morte dele foi como engolir um comprimido áspero e muito ruim, foi como um soco na boca do estômago que me arrancou da minha negação para encarar a crua realidade: eu nunca mais abraçaria ou falaria com meu avô. 

Eu senti muita raiva. De tudo, de todos, da vida, da morte. No processo de luto, fui culpando muitas pessoas, crenças, valores. A morte me desconstruiu completamente e minha vida se tornou um caos. Comecei a ter diversas doenças físicas, fui acometida por grande estresse no trabalho, dores insuportáveis, me isolava cada vez mais e meu relacionamento ficou bem abalado. Se o fim de todo mundo era a morte, então eu queria chegar a ela por minhas próprias mãos. Foram momentos bem obscuros, sensíveis, mas, sem querer ser clichê, foram de muitos aprendizados. O luto me fez aprender a aceitar que o controle era ilusório e tudo é transitório. Saber isso não deixa mais fácil, porém, você começa a valorizar mais a vida, afinal ela, possivelmente, é única. E, mesmo que eu não tenha pedido para nascer, já que eu estou aqui irei lutar com unhas e dentes para continuar respirando e aproveitando cada momento dessa experiência. 

Nesses momentos de reflexão de vida e morte, eu percebo que tenho muitos privilégios que muitas pessoas não tem. Isso me faz sentir um pouco sortuda, mesmo com todos os problemas graves que enfrento. E também por saber disso, eu tento viver a vida da melhor maneira possível em torno do valor liberdade (mas sobre isso eu falo em outro momento). Eu tento viver tentando compreender as pessoas, tentando ajudá-las, contribuir de alguma forma para deixar o mundo a minha volta melhor do que quando eu cheguei. Para mim, a função da morte é justamente nos dar a vontade de deixar um legado, de fazer algo bom para o local em que vivemos e as pessoas que amamos, assim como no filme a personagem principal buscava dar sentido a sua existência (e conseguiu). 

E vocês? O que acham desse assunto? 


2 comentários:

  1. Texto excelente. Adoro sua escrita é envolvente, pulsante, tem vida e nos faz refletir.
    Obrigado por compartilhar conosco!

    Abraços

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  2. Adorei seu texto. É um assunto muito difícil de se abordar sem entrar em religião, e você descreveu sua experiência com sensibilidade e neutralidade.

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