sexta-feira, 17 de maio de 2019

Uma emoção chamada culpa



Eu sempre tive sérios problemas de relacionamento com a culpa. Eu não sabia identificá-la, nem gerenciá-la, eu praticamente me sentia uma refém, sem muita escolha. Em terapia, aprendi que existem emoções primárias e secundárias, sendo as primárias aquelas "básicas", que você pode "sentir" (amor, medo, etc) e que são comuns a todos os seres humanos e algumas espécies de animais. As emoções secundárias (culpa, vergonha, orgulho, satisfação, etc e etc), são relacionadas ao social, ou seja elas são "aprendidas" no ambiente - na dinâmica da família ou religião - e são derivadas das primárias, por exemplo, você pode sentir culpa (secundária) por sentir raiva (primária). Segundo a terapia comportamental dialética, que é a que eu fiz, a culpa acontece quando violamos (ou quando violam) os nossos valores, daí vem aquela sensação de "queria ter feito de outro jeito". 

A culpa deve ser encarada como uma emoção perfeitamente normal, comum. Todos ser humano vai senti-la um dia. O único problema é quando você se vê afundado nela. Você não é suas emoções, mas não somos ensinados a pensar assim. Aliás, não somos nem ensinados a identificar e lidar com nossas próprias emoções, principalmente aquelas consideradas "ruins". Não existe emoção boa ou emoção ruim, elas são o que são. O que não deveria acontecer é nos identificarmos com elas, acreditarmos que "somos" aquela emoção. Por exemplo, quando me sinto culpada eu acredito firmemente que "eu sou uma pessoa ruim" em vez de me focar no "eu fiz algo ruim". Por isso, talvez uma melhor palavra para ser usada seja responsabilidade. Quando você se torna responsável por uma situação que você fez, você tem a chance de reparar. Na culpa você entra naquela círculo de autopiedade e autocrítica sem fim, mas, com a responsabilidade você analisa o que fez, cria alternativas de reparo e oferece a pessoa que foi magoada a chance de reconciliação (ou não, porque o outro pode não aceitar mesmo assim).

A culpa nos a apenas pedir desculpas e se sentir eternamente em dívida com o outro, muitas vezes perdendo o próprio autorrespeito porque fez "mal" ao outro (e porque eu fiz mal, devo ser punido). Basicamente, nós somos nossas crenças, nossos valores e o que pensamos sobre nós mesmos. De modo nenhum deveríamos abrir mão de quem somos, mesmo em uma situação em que cometemos um erro. O erro deve ser reparado e não ser um gatilho para auto degradação. Se fomos perceber, não somos encorajados a assumir nossos erros, mas sim, a ter vergonha deles e nos punir. A punição não vai ajudar nesses casos, se você tiver que abrir mão de quem você é por causa do outro.

Hoje em dia quando eu cometo algum erro, eu gosto de assumir a responsabilidade por ele. Eu me sinto muito melhor comigo mesma do que quando eu me afundo na culpa. É claro que a primeira emoção que vem é a culpa, mas eu a oriento para a responsabilidade. Eu me assumo como responsável diante da pessoa e ofereço opções de reparação ou peço que ela me mostre alguma alternativa. A maioria das pessoas está aberta a reparação. Isso restabelece a confiança, pois o outro percebe que você se importa e que sente remorso, que não foi intencional.

Quando apenas se sente culpa, nos afundamos em uma sensação torturante de remorso e autopunição, a situação não melhora. Mas quando direcionamos a culpa para a responsabilidade, os relacionamentos podem ressurgir melhores, afinal, os dois evoluíram com a situação. Da próxima vez que sentir culpa, questione seus pensamentos e perceba que você não é a culpa, você não é errado, nem ruim, você apenas fez algo "errado" e, muitos erros, podem sim ser consertados, e os que não podem, você deve aceitar, pois as pessoas não são obrigadas a desculpar os outros quando tem seus limites seriamente violados.

Já pensou sobre isso?

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