segunda-feira, 10 de junho de 2019

As aparências que enganam



Hoje eu assisti ao filme "The Elefant Man" do diretor David Lynch (que eu amo!). O filme é baseado em uma história real de um homem chamado John Merrick que sofria de uma doença congênita que lhe causou diversas deformidades. Eu fiquei bastante impactada em imaginar que uma pessoa realmente sofreu com uma doença como essa, e o filme transmite bastante desse sentimento desconfortável. 

Eu queria viajar um pouco aqui sobre o quanto as aparências importam na sociedade como um todo. No filme, o homem nem era tratado como ser humano, ele era explorado por um homem que dizia ser seu dono e o exibia nos fundos de uma casa após ser proibido de exibi-lo no circo. Um homem o tratava como objeto, uma coisa feita com o único propósito de trazer lucro. John era maltratado e vivia em um lugar escuro, se alimentando precariamente e sem afeto algum.  Nós não precisamos ir muito longe para perceber que em menor ou maior escala isso ainda é muito frequente. Algumas pessoas usam os problemas físicos ou emocionais das outras para lucrar em cima disso ou simplesmente por perversão. Gostem ou não, algumas pessoas simplesmente se divertem com o sofrimento dos outros. 

Eu lembro de uma garota na escola que tinha uma doença genética, não possuía cabelo nem pelo nenhum e usava uma peruca muito bonita - por puro medo de zombarem dela. Ninguém dizia que era uma peruca e ela sofria de um medo terrível de ser vista sem ela. Eu notava que ela fazia de tudo para ser aceita, tentava se encaixar entre as garotas populares porque assim não atraía atenção para ela, mas, por algum motivo ela se sentiu a vontade de me mostrar como ela realmente era sem os cabelos. Eu não vi diferença nenhuma além da física, continuava sendo a mesma pessoa. Eu nem sequer tinha curiosidade de saber como era, mas fiquei comovida com o sofrimento emocional, pois as pessoas (adolescentes na época) não tinham a menor compaixão, e, eu sei que zombariam de algo que a fazia sofrer muito. Eu mesma passei por isso muitos e muitos anos da minha vida por ser retraída e não ter o visual requerido pela sociedade. Apesar de agora estar me "encaixando" (mas não para ser aceita), eu ainda sou constantemente julgada por não falar muito ou por não saber me impor, apesar de estar aprendendo, mas ninguém sabe o que eu sofri antes delas me conhecerem, assim como ninguém sabia o que aquela garota passava quando eles riam dela. 

Voltando ao filme, um médico viu John e ficou interessado em primeiro momento em tirá-lo daquela condição sub-humana, mas, com o passar do tempo, inconscientemente, ele fez do homem uma nova vitrine, dessa vez para a alta sociedade, pois, como o caso de John era raro, isso trouxe fama e prestígio ao médico, massageando seu ego e, ao mesmo tempo, dando à alta sociedade algum entretenimento, afinal fingir ser uma pessoa caridosa era estimado á época. Em um momento do filme o médico se pergunta diante de sua esposa (que tentava justificar suas atitudes por não querer admitir que seu marido podia ter um lado sombrio): "Eu sou um homem bom ou mau?" pois começa a se questionar que diferença havia entre ele, um médico, da alta sociedade para o ex-"dono" de John, um homem simplório , abusivo e que só pensava em lucro. Naquele momento, de fato, os dois se igualaram, porque eles se tornaram então humanos, e um humano é bom e ruim, mas é aí que entra algo muito interessante: a consciência. O médico foi abatido por culpa e tentou modificar a intenção com que estava ajudando John. E é isso o que mais me comove no ser humano. Nós estamos atados a um corpo, um cérebro, comportamentos, hormônios e etc, mas a consciência é algo muito maior, maior do que tudo isso, e quando você a utiliza, descobre ter um poder imenso. Todas as pessoas, incluindo eu e você, temos traços tóxicos, uma hora ou outra. Negar nossos defeitos, é o mesmo que deixá-los livre para ser o que são, eles não irão mudar porque a gente acha que não é um narcisista ou um idiota em determinados momentos. A gente é o que a gente é, mas quando você aceita que tem esse ou aquele traço tóxico, a consciência emerge em você o poder da mudança. Calma, não é um papo new age, nem esotérico, é apenas psicologia. Você só muda o que aceita. E é lindo assistir isso em um filme ou ver na vida real, eu mesma passei e ainda passarei por muitas dessas transformações, não podemos ter medo de admitir que somos "maus" em determinado momentos, mas sim compreender essa maldade e orientá-la para a luz. 

John Merrick só queria ser visto como um homem, assim como muitas das pessoas que sofrem bullying ou são isoladas por determinado problema mental ou físico. Imagine viver temendo ser visto ou ouvido pelos outros porque você sabe que jamais será compreendido, e ainda irão rir de você?... Eu consigo imaginar porque sofro de um transtorno mental grave e quando as pessoas descobrem, muitas delas se afastam, por puro medo ou ignorância. Elas não acreditam que eu seja capaz, não levam a sério o que eu falo e me fragilizam acreditando que estão fazendo o melhor para mim (o médico fez isso com John). Então eu meio que sei como essas pessoas se sentem, eu mesma fui isolada e zombaram de mim por muitos anos. Mas tudo o que um ser humano quer é ser visto como um ser humano, ter afeto, carinho, respeito, amor, dignidade. Ninguém quer ser uma piada, uma vitrine, um monstro do qual os outros tenham medo. A deformidade dele era apenas física, mas seu interior era rico e complexo. Mas pessoas são pessoas, e igual ao filme, as vezes elas precisam de tempo para perceber que o interior vale mais do que o exterior - algumas jamais percebem. 

Por fim, John, em determinado momento, rodeado de pessoas curiosas (crianças e adultos) que riam e apontavam dedos para a deformidade dele, com expressões de horror e nojo, acaba gritando que ele não é um animal, ele é um ser humano... um homem. Foi a sociedade julgadora que eu vi ali. A sociedade que só aceita pessoas em determinado padrão e se você não for como eles querem, então será alvo de escárnio, perversão e muitas vezes ódio. As pessoas temem o que elas não compreendem e se elas aceitassem isso, a humanidade podia progredir mais rápido. A compaixão requer que você tenha mesmo medo, mas queira compreender, queira dar um passo a frente, quando paramos no medo então nada progride, tudo continua na escuridão. 

Esses eram os assuntos que eu queria falar sobre o filme, claro que tem muito mais, e eu poderia ficar horas aqui falando de David Lynch porque eu acho ele o máximo, mas eu vou restringir minha opinião para que você assista o filme ou leia sobre John Merrick, garanto que vai fazer você pensar na sociedade de hoje. Não mudou muita coisa. 




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