segunda-feira, 17 de junho de 2019

O monstro da depressão


Esse blog está começando a virar uma espécie de diário depressivo. Mas como não escrever sobre essas emoções me afligindo toda a madrugada? Todos esses anos roubados de uma vida que poderia ter sido diferente... Mas a vida é o que é e eu me sinto muito sortuda por nessa experiência ter conforto material, bons amigos e poucas dificuldades que possam me impedir de progredir ( miséria, fome, guerras por exemplo). Eu sempre penso que existem pessoas em situações mil vezes piores, agradeço pelo que tenho, reconheço minha sorte mas, vergonhosamente, a depressão me toma conta totalmente, especialmente na insônia. 


Aqui, na escuridão quebrada pela tela do celular, eu me sinto em paz, ouvindo os barulhos da cidade em meio ao silêncio da madrugada. Aviões, latidos longínquos, carros passando, meu marido respirando enquanto sonha, meu cachorro revirando na cama, meus gatos ronronando. Sons vivos... Eu imagino que estou morta. Completamente inexistente, envolta na escuridão final. Testemunho que a vida continua e segue muito bem sem mim. As pessoas sentiriam saudades no começo, pensariam sobre mim, tentariam entender a dor que carreguei quase a vida toda, mas logo elas seguiriam suas vidas e, com o tempo, eu seria a lembrança de alguém que elas conheceram e algumas amaram. O nosso futuro amargo é nos tornarmos apenas mera lembrança, uma recordação na memória ou na estante empoeirada de alguém. Nesse momento lágrimas escorrem em meu rosto, eu também tenho medo de morrer. O desconhecido, a insegurança, o capítulo final. Mas, ao mesmo tempo, parece uma ideia benéfica para todos ao meu redor. Sem mais preocupações sobre meu estado emocional, sobre meus pensamentos suicidas, minhas autolesões ou a quantidade excessiva de alcool e remédios que venho tomando para aplacar a dor. Meu terapeuta não teria mais que se esforçar para encontrar um alívio ao meu sofrimento. Minha psicóloga teria um paciente a menos para se preocupar. Minha família não se preocuparia pois eu estaria morta, inexistente. Eles saberiam o que aconteceu comigo em vez de imaginar que eu posso me matar a qualquer hora dessas sem querer. 

Eu não gosto de viver assim. Não foi minha escolha. Eu fico aqui pensando como deve ser melhor ter problemas comuns, sabe? Eu acho maravilhoso ouvir os problemas das pessoas. Eles parecem plausíveis, comuns. Mesmo a pesssoa com cancer avançado e que vê a morte bem pertinho dela parece bem mais resolvida emocionalmente do que eu, ao menos ela decidiu enfrentar com algum otimismo e coragem...

O mal da depressão é esse: ninguém consegue enxergar que você sangra por dezenas de cortes profundos em sua "alma". É algo tão específico, individual e subjetivo. Parece que você está em um lugar aonde ninguém pode te alcançar. Onde você não consegue se agarrar às mãos que se estendem a você... Problemas normais... Casamentos ruindo pela falta de tempo de um cônjuge, doenças dolorosas que podem ser tratadas, perda de emprego, estresse elevado no trabalho... Eu ouço as pessoas chorando ou sorrindo com todos esses problemas e fico em paz por saber que elas seguem em frente e encontram caminhos para melhorar suas vidas. Todo mundo tem um problema, nem todo mundo pode resolvê-lo. Você só muda o que aceita... Será? Eu aceito minha dor emocional e faço tudo o que está a meu alcance para ela diminuir, e aqui estou eu. Uma vida quase toda sendo assombrada por dores terríveis. 

Eu não quero parecer uma vítima. Isso não seria justo da minha parte. Eu sou o que sou e sou limitada a minha biologia e estrutura cerebral. Mas minha consciência ou "alma" está cansada de testemunhar todo esse mar de dor dentro de mim. Não pode ser visto, nem tocado, apenas sentido e apenas por mim. Eu me afogo cada dia mais e mais em dor existencial insuportável. Quer dizer, eu aguento. Aguento calada, coloco uma maquiagem no rosto, uma roupa bonita, um meio sorriso e digo a mim mesma que eu aguento. Que é isso que as  rainhas fazem. Elas suportam o peso do manto e da coroa com desenvoltura, braveza e ousadia. Elas não podem parecer frágeis. E nem eu. Eu fui inserida nessa luta então permanecerei de pé con alguma dignidade. Até quando? Eu não sei. Mas já tenho medo de que essa guerra esteja perdida... 

Eu penso na minha avó. Eu não desejo morrer antes dela. Ela ficaria péssima. Eu a amo demais para lhe trazer esse tipo de dor mas será que minha mente entende isso? Ou a dor já deturpou a racionalidade? Porque sinto que deterioro dia após dia. Eu não gosto de ter todos esses problemas emocionais. Eu queria viver minha vida com coragem e resiliência. Mas eu não consigo. Eu acabo perdendo para mim mesma. Fragilizada, sentindo a solidão obscura, assustada, vazia e patética. Sinto vergonha de estar assim e também culpa. A maioria das pessoas não compreende e nem tenta, pois tem a falsa crença de que depressão é escolha, falta de vontade, falta de um Deus e que basta ter pensamento positivo ou arrumar o que fazer. Eu trabalho, faço as tarefas de casa, tenho muito o que fazer. Você me vê sorrindo, brincando, flertando, mas não imagina o quão quebrada e inútil me sinto por dentro. Eu não posso demonstrar ou serei julgada. Ouvirei dez mil conselhos sobre como "curar" a depressão ou um sermão sobre como minha vida é ótima e eu não devia reclamar, ouvirei que devia superar pois já vivo há muitos anos assim ou então serei ignorada e excluída pois alguém tem medo que eu surte, mate alguém ou ache que seja contagioso, quem sabe uma psicopata. Diante disso, melhor calar. Mas acho que um dia as pessoas tem de evoluir e ver que a depressão, transtornos mentais em geral são doenças como as físicas. Ninguém escolheu mas todos tem de lutar contra monstros sugadores de energia e assassinos dentro de suas próprias mentes e, como se não fosse o bastante elas tem de funcionar socialmente e lidar com rejeição, julgamentos e culpa. 

Se eu fosse deixar um legado, uma mensagem para ser lembrada é que o ser humano tem algo incrível dentro de si. Ele não sabe mas é um herói - um herói de si mesmo - e tem um poder grandioso chamado empatia. Se todo mundo pudesse exercer, viveríamos muito melhor, mais conectados uns aos outros. Isso salvaria milhões de vidas. Minha única esperança que restou é que a sociedade cada vez mais vai perceber esse poder e utilizá-lo. A compaixão também. Compaixão por si e pelo outro. As duas caminham juntas e habitam todo ser humano consciente. Espero que todos possam acessa-las em sua completude um dia.

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