domingo, 2 de junho de 2019

O valor da liberdade



A viagem de hoje é sobre liberdade! Se minha vida pudesse ser resumida em um único valor seria esse. A liberdade de ser, fazer, falar e pensar o que eu quiser, sem medo de preconceitos e julgamentos, mas com responsabilidade. Eu não acredito que seja possível a liberdade total porque, de certa forma, estamos limitados por nosso corpo e nosso cérebro, e também porque vivemos em sociedade o que significa que todo mundo uma hora ou outra vai ter que ceder uma parte de sua liberdade em prol do bem comum, mas, mesmo com todos esses obstáculos eu sempre acreditei que esse fosse o valor mais importante da vida.


Eu comecei a questionar tudo desde muito cedo. A primeira psicóloga que fui aos onze anos sempre me dizia que eu não parecia criança, nem adolescente porque tinha o pensamento muito complexo - e lia Shakespeare. É claro que eu não escolhi ser assim, as circunstâncias da minha vida me forçaram a adaptação e minha mente começou a questionar sem parar. Dentre esses questionamentos surgiu a sensação de estar presa. De certa forma, eu estava presa com algum transtorno mental que limitava quem eu era, o que eu fazia e o que eu pensava. Eu ficava sem controle das minhas emoções, não tinha uma identidade e sofria com delírios e alucinações, entre outros sintomas. Era como ser refém de um criminoso invisível que morava dentro do meu cérebro. Eu sofria e fazia sofrer, sem nenhuma intenção. Aos olhos dos outros eu era estranha, maluca e ás vezes cruel, mas, dentro de mim, era como ter alguém empurrando uma arma na minha cabeça me obrigando a fazer coisas que nem sempre eu queria. Então, minha meta se tornou escapar disso de alguma forma e enfim poder ser livre. 

Eu também queria ficar livre do medo. Depois de sofrer sucessivos traumas, eu desenvolvi medo de tudo, principalmente se envolvesse contexto social. Eu tinha pavor de ser julgada, de virar piada, de descobrirem que eu era uma fraude (era assim que eu pensava sobre mim), de descobrirem que eu era um "monstro" disfarçado de humana. Eu praticamente vivia a minha vida para seguir as regras e fugir de dedos sendo apontados para mim, eu estava presa dentro de mim. Isso não era liberdade. Se você sente medo de ser, fazer ou falar o que sente-pensa, porque teme a consequência, então não está sendo livre. 

Ser livre tem a ver com ter escolhas e ser responsável por elas. Se formos analisar, a maioria das pessoas fala que é livre, mas tem medo da responsabilidade. Por exemplo, eu, tendo um transtorno mental grave, que prejudica meu relacionamento comigo e com os outros, tenho duas opções: ou eu busco tratamentos e luto da melhor forma possível ou eu não faço nada e deixo isso me levar sem controle. Claro que muitas pessoas vão dizer que só existe a primeira opção, mas a liberdade envolve também escolhas ruins, a chave aqui são as consequências. Se eu escolho a opção mais lógica, eu posso até ter muitas dificuldades, mas eu não estarei sozinha porque as pessoas tendem a apoiar quem se esforça e demonstra arrependimento ou vontade de melhorar. Se eu escolho a opção mais "fácil" (não fazer nada), provavelmente meu futuro seria ficar sozinha ou dar muito trabalho para as pessoas, ser considerada cruel, difícil, e o mais importante talvez eu me sentisse péssima comigo mesma e ainda mais presa com um assassino no meu cérebro. De qualquer forma, são escolhas. E isso é liberdade. Você ver as opções e escolher uma delas, e depois que escolheu arcar com as consequências, ser responsável. 

As pessoas costumam relacionar liberdade com fazer o que quer sem pensar no amanhã, falar o que quer sem pensar nas consequências, e é claro que sempre tem essa opção, mas não devemos limitar algo tão amplo a apenas isso. Ser livre significa que eu tenho o poder de modificar ou não a minha vida, que eu não estou sendo guiado por outras pessoas ou outras forças, que o único juiz das coisas que digo e faço sou eu mesmo. Ser livre significa não permitir que outras pessoas te censurem ou te julguem pelas suas escolhas porque você sabe muito bem sua história e o motivo de ter feito essa escolha. Ser livre é deixar que o outro seja livre mesmo que você discorde com as escolhas dele.

Então eu descobri que meu sonho não era alcançável em sua totalidade porque a liberdade vem com um peso gigantesco de responsabilidade e ás vezes isso significa restrição. Qual parte da minha liberdade irei abrir mão hoje e pelo quê? Sempre que se deparar com essa questão pense no que beneficiaria você e o outro, e o que é melhor para o bem comum. Por exemplo, eu moro em uma casa e tenho um cachorro. Ele chora e late muito de madrugada. Isso incomodava um dos meus vizinhos, enquanto o outro nem se importava e gostava do cachorro. Em vez de conversarmos, começamos a ameaçar uns aos outros por cima do muro. Isso é infantilidade, mas foi uma escolha infeliz que eu fiz, e eu sofri as consequências de me sentir mal e ficar estressada a toa, além de me sentir uma imbecil completa (culpa e vergonha). Um dia, depois de bater boca com ele, eu fiquei com medo de o cachorro sofrer as consequências por causa disso (discutir agressivamente com as pessoas não é a melhor opção). O medo fez com que eu ficasse em constante alerta todos os dias. Qualquer barulho eu achava que era ele. Certo dia, o vizinho veio até minha casa e pediu desculpas, eu o ouvi, raciocinei e também pedi desculpas. Foi então que ele explicou que a vó dormia na casa da frente e ela acorda com qualquer barulho. Isso eu posso entender, eu tenho vó e eu também acordo com qualquer barulho. E assim eu escolhi dormir com o cachorro dentro de casa e, indo ao veterinário, eu descobri que ele sofre de ansiedade de separação grave, por isso ele fica assim quando está sozinho a noite, lá fora (ou seja, escolher ouvir o vizinho, me fez descobrir que meu cachorro estava sofrendo). Eu tinha opção de não fazer nada, deixar ele latindo, e nem me importar, como muitas pessoas fazem, mas quando exerci a empatia eu vi que não tinha essa opção. Eu sou bastante orientada pelo valor da liberdade e isso significa deixar o outro ser livre também, livre para dormir tranquilamente sem um cachorro latindo as 3 da manhã, mesmo que isso tenha significado perder alguma liberdade dentro da minha casa. Mas se a minha opção foi ter um cachorro, é claro que eu poderia ter algum problema com vizinhos, e isso é liberdade. Eu escolhi, mas fico "presa" nas consequências, a questão é poder escolher onde ficar "preso" e pelo quê. 

Outro exemplo, ás vezes você tem um amigo que gosta muito, mas que não tem muita compatibilidade de ideias com você, vamos supor que esse amigo goste de piadas machistas e tende ao preconceito. Você tem que compreender primeiro até onde seu limite aguenta, aceitar que as pessoas tem essa opção e escolher se quer essa pessoa na sua vida ou não. É um direito seu se afastar de pessoas sem afinidade com você. Nós toleramos até algum nível. Isso é liberdade. Eu escolhi me afastar, e sei que isso significa não ter mais a parte boa da amizade, mas meu valor é maior do que isso, e mesmo com o coração partido é melhor para os dois. 

A liberdade é dolorosa, mas é maior inclusive que a vida - na minha visão - pois muitas pessoas preferem morrer do que perder a liberdade, como quando alguém que defende uma causa é morta por outros que querem silencia-la. Sim, ela perdeu a vida, mas a liberdade dela a fez plantar seus valores em outras pessoas e, por isso, de certa forma, a pessoa continua viva através de outras que levarão a frente seus valores. Não se mata alguém livre. Pense sempre o que te faz sentir livre e tente viver sua vida através disso depois me conte como se sentiu. 




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