quinta-feira, 13 de junho de 2019

Sobre sentir demais




Era madrugada quando eu senti as lágrimas correndo em meu rosto. Minha cabeça latejava, o gosto de álcool subiu em minha boca e a escuridão parecia me engolir. Eu me culpava por não estar me sentindo feliz, plena e satisfeita. Eu deveria estar feliz. Eu consegui tudo o que eu sempre quis, ao menos, tudo o que realmente importa, mas o vazio vinha profundo e intenso, tão pesado que era quase concreto. Era como se um fantasma me assombrasse com promessas de que eu jamais poderia me sentir satisfeita na vida. Eu não fui feita para isso (a vida), eu sinto demais. Tudo para mim é demais quando se trata de sentimentos, é quase como se eu fosse possuída por eles. Se eu amo, eu amo demais, se odeio, odeio demais, se eu me importo, me importo demais e se eu perco interesse, perco de vez. Para algumas pessoas isso parece vantajoso, afinal deve ser muito bom sentir amor demais. Mas eu nunca vi muita vantagem. Eu estou sempre quebrando a cara, me iludindo e fazendo o papel de boba. Não estou querendo me fazer de vítima, mas é apenas um desabafo de quem não aguenta mais...

Eu tento disfarçar todas as coisas que eu sinto em demasia e falho miseravelmente. Infelizmente, eu nasci com essa condição e parece que nada do que eu faça melhora, apenas atenua em alguns momentos. Eu acordei as 2:30 da manhã, chorando e com vontade de desaparecer devido ao peso excessivo de sentir demais. Eu não queria estar sentindo o que estava sentindo, mas parecia que eu era obrigada, quase uma refém das minhas emoções exageradas. Eu me culpei e me critiquei por não conseguir ser uma pessoa melhor, por não conseguir agir melhor, por não conseguir esquecer como as outras pessoas. Eu imagino que elas deitem a cabeça em seus travesseiros, fechem o olhos, pense um pouco em algum assunto, e durmam tranquilamente. Sem os pesadelos que me assombram durante a noite, das minhas emoções me perseguindo e me machucando. Eu invejo as pessoas que sente raiva, ódio ou qualquer outro sentimento em um momento e alguns dias ou horas depois aquele sentimento já diminuiu ou foi resolvido. Comigo, sempre fica no mesmo nível.

Quem sente muito, se machuca demais. O tempo todo. Quando há uma folga é um verdadeiro alívio, pois eu começo a me sentir uma pessoa comum, sem tantas preocupações, apenas vivendo minha vida, minha alegria e minhas dores, mas a estabilidade emocional nunca dura tempo o suficiente para eu me acostumar, e me vejo assaltada por todos os tipos de emoções em níveis elevados. Só hoje - e são apenas 11 horas da manhã - eu já senti dezenas de sentimentos diferentes em níveis que me esgotaram e me deixam a beira de um surto.

É claro que é muito bom amar e sentir-se exageradamente amado, mas isso é quando é real. Geralmente, meu cérebro emotivo aceita migalhas (ou inventam coisa onde não tem), as mesmas migalhas que eu aconselho a todas as pessoas que eu conheço a nunca aceitarem. Pessoas não merecem migalhas de afeto, carinho e amor. Elas merecem o sentimento completo, real e puro. Mas eu... ah, eu vim emocionalmente danificada. Mesmo tentando criar uma personalidade forte e decidida, ainda sou traída pela minha própria biologia que insiste que eu devo sentir tudo em demasia, que eu devo ter altas expectativas e que tudo se resolve com qualquer migalha de afeto. Eu fui feita para viver procurando carinho, atenção e amor em qualquer pessoa que eu conheça e crie o menor vínculo, qualquer coisinha. Eu fico cansada desses altos e baixos, de todas as vezes que eu sou usada, que sou feita de boba e que me enganam, no fim eu sempre descubro que o afeto tinha algum interesse ou que eu nunca signifiquei nada. E lá vem a dor, em níveis altíssimos. Uma dor insuportável que eu gostaria de morrer para nunca mais sentir.

Minha inexistência parece sempre a melhor opção, mas eu sei que esse é meu cérebro depressivo buscando uma solução rápida e definitiva. "Suicídio é uma solução permanente para um problema temporário", meus amigos, terapeutas, minha mente e as pesquisas no google sempre me lembram dessa frase, mas e se o problema for permanente? Eu fui permanentemente danificada emocionalmente, infelizmente não existe uma cura, não tem conserto, eu só consigo controlar ás vezes e depende muito do que está acontecendo. Esse é meu jeito de viver, e eu não gosto porque o nível de dor que sinto não compensa a parte boa.

Então eu resolvi escrever em uma tentativa desesperada e patética de tentar compreender os sentimentos que me perturbam. Eu continuo sem entender. Eu sei que não existe um motivo para eu ser assim, é assim e ponto final. E é muito legal as pessoas me dizerem que eu sou forte e que me admiram por eu lidar com esse meu problema de instabilidade emocional, mas que escolha eu tenho? Eu sou forçada a seguir em frente e lutar contra isso. Essa luta eu nunca escolhi, eu fui escolhida.

Mais uma vez, eu estou aqui, sentindo um vazio enorme, uma tristeza sem fim, e a falta de perspectiva. Mais uma vez, não consigo enxergar meu futuro. Eu sinto que uma hora ou outra eu irei estragar tudo e as pessoas vão descobrir a fraude que eu sou, pois, mesmo que agora eu consiga ver um ser humano no espelho, eu ainda me pergunto se existe um monstro dentro dessa minha capa de humano. Porque é assim que eu me sinto. Eu deveria estar feliz sim. Eu deveria estar rindo, amando as pessoas a minha volta, tendo um relacionamento maravilhoso com meu companheiro, me divertindo com meus animais, mas eu simplesmente não sou capaz e acabo sendo um problema na vida deles. Eu não consigo e nem mesmo tenho chance de entender o porquê.


Um comentário:

  1. Ótimo texto. Colocar para fora é bom, eu acho. Eu tenho excesso de empatia e já caí em muitas ciladas ao longo da vida. Dizem o que não nos mata, nos faz mais fortes, mas nem sempre é assim. De todo jeito, eu sigo com o meu mantra: um dia de cada vez.

    Espero que se sinta melhor! E obrigado pelas palavras. Você não é uma fraude. É uma pessoa que tem muito a ajudar/colaborar no mundo.

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