segunda-feira, 29 de julho de 2019

Sobre ser mais de um "eu" - Parte 2



Agora você sabe um pouquinho sobre o transtorno dissociativo de identidade (TDI), se não leu clique aqui, então eu vou descrever como é um dia dentro da minha cabeça, quer dizer, eu vou tentar, pois eu não tenho recordações de tudo...

Antes de descobrir o que eu tinha, eu acreditava ter apenas o transtorno da personalidade borderline então tudo que acontecia comigo eu acreditava ser por causa disso, mas havia algo bem estranho... Sempre em momentos muito estressantes, eu desligava completamente e "acordava" com diversos machucados pelo corpo, sem ter a menor noção de como tinham acontecido. Apesar de"sintomas dissociativos" sejam comuns em quem ter borderline os meus sintomas pareciam ultrapassar alguma espécie de limite... Então eu reparava que ficava dias, ás vezes semanas, sem nenhuma lembrança. Além disso, a maior parte da minha infância, eu não tenho recordação e entre doze e dezessete anos, eu tenho apenas flashbacks. Mas tudo isso parecia tão comum para mim que eu achava que com todo mundo era assim, até que comecei a notar que muitas pessoas tinham lembranças detalhadas de suas vidas na infância e adolescência. Isso me fez cair a ficha de que possivelmente eu pudesse ter um transtorno dissociativo. 

Muita gente não acredita que isso exista e não acredita que uma pessoa possa ter os dois diagnósticos. Quanto a não existir, já ficou provado que é falso. A doença existe, a única controvérsia é se ela é um desdobramento do borderline ou um diagnóstico isolado - ou quem sabe apenas um cérebro diferenciado. Eu acredito que seja um desdobramento do borderline ou o contrário, que o borderline seja consequência do TDI ou ainda que ambas sejam a mesma coisa. Eu não consigo ver elas separadas e eu encaixo na lista de sintomas das duas. 

Mas como é ter um TDI? Eu só posso falar por minha experiência.... Sempre foi como se houvesse uma consciência principal, apenas observando, enquanto várias outras partes interagiam entre si. Vozes internas que discutiam entre si, tentavam me consolar, alertar, proteger e também machucar. Era como se todas interpretassem um papel. Eu não me sentia no controle de minhas emoções, principalmente a raiva. Muita gente que me viu nesse estado dizia que eu me tornava outra pessoa. Eu quase nunca tinha lembrança dessa virada de humor. Em relação ao medo era a mesma coisa, dizem que eu ficava em estado infantilizado. Eu sinto como se fosse "possuída" por diversas "identidades" diferentes, sem poder nenhum de interagir, muitas vezes apenas observando, e em outras sem nem saber que aconteceu. Eu ouvia vozes internas sendo agressivas e rudes comigo, me levando a duvidar de mim mesma e me impedindo de concluir algumas tarefas, principalmente aquelas que me levassem a um novo nível como faculdades, cursos, mudanças de emprego. Eu nunca consegui terminar de escrever um livro devido a algum momento em que uma identidade me colocava em dúvida sobre minha própria capacidade. Eu nunca achei coragem para fazer a faculdade e o curso que tanto desejei porque as vozes me diziam que não era seguro ou que eu nunca seria capaz. Eu deixei de fazer amigos, de manter amigos e de mandar "amigos" irem embora por causa dessas vozes. Não eram vozes externas, e sim internas, como pensamentos, só que eu não podia controlar e elas pareciam ter identidade própria, opiniões, nomes e valores internos. Eu nunca consegui ser eu, porque o meu eu está dividido dentro de mim.

Havia muita falta de aceitação da minha parte, de certa forma, eu tinha preconceito comigo mesma. Parecia impossível eu ter um transtorno dissociativo de identidade. Algo fantasioso. Eu achava que seria rotulada e julgada, que as pessoas pensariam que era uma desculpa para meus comportamentos, foi como um medo extremo de ser "jogada em uma fogueira". Algumas pessoas são especialmente cruéis quando protegidas em um grupo, e quando se trata de transtornos mentais existem muitos grupos que atacam impiedosamente. Eu me neguei a aceitar o fato, ultimamente queria até mesmo esconder o borderline, mas isso não me ajudou. Então eu comecei a aceitar isso e que eu não era a única. Há muitas pessoas passando pelo mesmo e com medo de se abrirem. Foi então que decidi escrever no blog, voltar a falar sobre o borderline e finalmente abordar isso em terapia. Eu consigo enxergar meus "eus" e aceitá-los como eles são. Eu compreendo que todos são eu, e eu sou todos eles, não existe um separado do outro, eles estavam apenas em quartos separados de portas fechadas. Eu também compreendo que a dissociação é um mecanismo de sobrevivência, o único possível para uma criança dependente e indefesa. Isso me fez perceber a força do nosso cérebro, a vontade de que as coisas deem certo e possamos continuar nossas vidas. Eu sou uma sobrevivente e ninguém pode tirar de mim esse mérito. Além disso, eu me tornei alguém bem resiliente, que nunca desistiu de encontrar respostas, de certa forma, mesmo querendo morrer em alguns momentos, uma parte de mim nunca desistiu de mim. Apesar de ser algo extremamente difícil em lidar, agora consigo ser grata. Isso fez e faz parte de mim, mas não é o que eu sou. 



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