quarta-feira, 10 de julho de 2019

Sobre ter mais de um "eu" - Parte I



O transtorno dissociativo de identidade era (e ainda é por gente desatualizada) chamado de Transtorno de Personalidades Múltiplas. Não são bem "personalidades", mas identidades, estados mentais diferentes uns dos outros. E do contrário do que se prega, a esmagadora maioria não é agressiva, exceto consigo mesmos



"A característica essencial do Transtorno Dissociativo de Identidade é a presença de duas ou mais identidades ou estados de personalidade distintos (Critério A), que recorrentemente assumem o controle do comportamento (Critério B).

Existe uma incapacidade de recordar informações pessoais importantes, cuja extensão é demasiadamente abrangente para ser explicada pelo esquecimento normal (Critério C).

A perturbação não se deve aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância ou de uma condição médica geral (Critério D). Em crianças, os sintomas não podem ser atribuídos a companheiros imaginários ou a outros jogos de fantasia."  Fonte PsiqWeb


Quando eu iniciei, há 4 anos atrás, meu tratamento para transtorno da personalidade borderline, o sintoma de dissociação (já explico) não era tão frequente, e acabou se confundindo com um transtorno do estresse pós-traumático associado. Na verdade, eu achava que o que acontecia comigo era tão estúpido que eu não tinha a menor coragem de revelar ao meu psiquiatra, com medo de ser internada a força. Com o tempo, ele mesmo percebeu que havia mais coisas, mas não se aprofundou acredito porque eu tinha de ter a iniciativa. Há seis meses atrás entrei em depressão grave e só agora eu percebi que devia lidar com o transtorno dissociativo, já que o borderline está relativamente em controle - o que eu achava impossível. 
Desde muito nova eu me percebo sendo mais de uma identidade. Com sete ou oito anos eu tive meu primeiro pensamento suicida - pelo que me lembro - mas mesmo antes disso eu tinha a sensação de que algo estranho havia acontecido comigo. Eu não tinha amigos imaginários, eram como identidades na minha mente e que eu conseguia "enxergar" no espelho. Também não era uma alucinação e era tão automático que parecia normal. Achei que isso acontecesse a todo mundo, mas com a adolescência percebi que não. Eu era estranha e provavelmente maluca e um dia seria internada para sempre. Isso me assustava demais. 

A dissociação para quem não sabe é como um divisão na mente, como quando você está dirigindo o carro e de repente se dá conta de que não se lembra de um trajeto, mas você dirigiu. É isso só que em uma amplitude maior e por muito mais tempo. Eu lembro bem da primeira vez que eu percebi que estava dividida. Eu devia ter uns onze anos e foi logo antes do meu trauma mais doloroso. Eu me vi falando sozinha com respostas diversas como se várias pessoas discutissem em uma sala. Eu não havia me dado conta até aquele momento. As partes tinham nome e identidade próprias. Cada uma com uma opinião. Eu não achei especificamente estranho, mas sabia que eu jamais poderia revelar a ninguém. E então eu fiquei dois meses sem ir a escola. 60 dias em que não lembrava de nada além de flashes. Aparentemente eu tinha falsificado bilhetes da escola e enganado minha mãe, mas eu não lembrava de muita coisa. Ela chegou gritando e me espancou - mais trauma. Eu admiti a culpa sem me lembrar como aconteceu. Eu fiquei confusa por semanas. Até que o trauma aconteceu. Talvez meu inconsciente já tivesse captado os sinais do trauma e assumir aquela identidade me protegia da dor. Mas eu não pude ser poupada de sofrer um abuso sexual. Quem via de fora não achava que havia sido algo sério, porque ele não me tocou, nem nada, mas ele era como um pai, cuidou de mim desde bebê, e não era possível nem aceitável que visse uma criança de onze anos com olhar sexualizado. Parte de mim sabia que aquilo era muito, muito errado. E quando meus familiares que deviam me proteger me disseram pra esquecer e depois para perdoar porque "ele cuidou de você", eu percebi que todas as minhas identidades entraram em conflito. Daí em diante foi ladeira abaixo e eu não me recordo de quase nada além de flashes entre meus doze e dezessete anos. 

Hoje eu sei que meu transtorno dissociativo foi causado por todo o abuso psíquico e falta de apego / afeto que sofri na primeira infância. Eu frequentemente me sentia não pertencer a família, um monstro abandonado pelo pai  (porque na minha cabeça ele só podia ter fugido porque eu era um monstro) e sentia que minha mãe nunca gostou de mim. Eu tentava agradar de todas as formas, mas nunca era suficiente. Ela era uma pessoa abusiva, porque era muito jovem, ela me teve adolescente e também tinha tido uma vida difícil. Era uma criança agressiva cuidando de um bebê indefeso e sensível. Eu sempre fui sensível. Sempre. E ela não conseguiu me dar o que eu precisava, faltou afeto e apego.  Isso deu inicio não apenas ao borderline, mas também ao transtorno identidade. Sabe-se que esse transtorno tem como causa abusos sofridos na infância. Imagine uma criança que é abusada pelo pai, mas ao mesmo tempo ele é que é o cuidador dela, lhe dando abrigo, carinho e atenção. Como é possível eu gostar de alguém que me maltrata? Não é. Por isso a mente se divide. Uma parte fica com a dor, a outra continua seguindo em frente "pelo bem de todos". Comigo não foi diferente (esse meus caros, é o poder da adaptação).

Com o tempo eu me tornei vítima de outros tipos de abuso com outros tipos de pessoa, e isso apenas piorou meu estado. Pessoas com transtorno de identidade acabam se colocando em situação de revitimização, afinal isso é tudo o que elas conhecem, o cérebro tende a manter o que acredita ser "seguro".  E é aí que a terapia é super importante. Você precisa ficar consciente para poder lidar com isso, precisa aceitar para poder mudar. E estou nessa fase. 

Eu tenho mais de duas identidades. Não estou preparada para escrever sobre elas, mas sei bem disso. É muito estranho admitir isso, tornar concreto para qualquer um poder ler. Eu sinto como se abrisse uma parte muito íntima minha, mas talvez outras pessoas passem por isso e não quero que se sintam só como eu venho me sentindo. E também não quero ficar lendo tantas coisas estigmatizantes na internet, sem nenhum fundamento científico de pessoas e profissionais que não estudam a fundo isso e propagam ideias falsas.

Eu fico chateadíssima em alguns momentos, me perguntando porque todas essas coisas complexas acontecem comigo. Eu queria apenas viver minha vida comum, acordar e dormir sendo apenas uma pessoa integrada, sem todas essas vozes internas. Queria poder conversar com alguém sendo eu mesma e me lembrar de tudo o que acontece comigo, o que falo e o que sinto. Queria também não ficar refém de uma identidade agressiva que ao mesmo tempo deseja ser salva por alguém externo. Queria que as pessoas não ficassem confusas sobre quem sou eu, porque parece que mudo o tempo todo. Mas nem eu sei mais. Qual dessas sou eu? Essa tem sido a resposta que procuro desde sempre e estou firme no propósito de encontrá-la. 

Não irei me estender nesse texto, no próximo eu conto mais profundamente como é ter mais de uma identidade e o que fiz durante esses anos para lidar com ela. 


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