quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Existe cura para o transtorno da personalidade borderline?


*Remissão do Borderline ------------------------------ Significa não encaixar entre 5 a 9 critérios -------------- Contudo não significa uma melhor qualidade de vida                  Fonte da foto e matéria (em inglês): clique aqui

Talvez a pergunta mais assertiva seja: "será o transtorno da personalidade borderline (TPB) uma doença ou apenas um mecanismo de adaptação?".... Ninguém sabe ao certo. Na área da psiquiatria, nunca é tão simples quanto gostaríamos. Existem muitas pesquisas, livros, teorias, mas certeza ainda não é possível. As evidências apontam que não seja uma doença, mas sim uma espécie de mecanismo de defesa, uma resposta a um ambiente ou evento invalidante em um cérebro predisposto ao borderline. Existem autores com diversas opiniões divergentes. No Brasil, infelizmente ainda predomina a ideia de que seja algo incurável, uma doença triste, beirando a psicopatia, porém as pesquisas apontam o contrário. O borderline é o transtorno mais tratável na atualidade, e com altas taxas de remissão completa, como tem sido o meu caso, além disso, não existe nada de psicopatia e todos os comportamentos e sintomas podem ser racionalmente explicados por um aumento  ou diminuição de determinadas áreas cerebrais. Com tratamento especializado, a melhora dos sintomas acontece em até dois anos, sendo que em quatro anos já é possível a remissão total. 

Remissão é cura? Não. Mesmo porque para curar, algo precisa estar "quebrado". Uma personalidade não pode ser considerada quebrada. Os sintomas do borderline não tornam a pessoa incapacitada, doente, indigna, muito menos psicopata. São pessoas cujos cérebros necessitaram se adaptar a ambiente ou eventos que lhe causaram severa instabilidade emocional, um cérebro que já tinha predisposição a desenvolver (ou não) esse transtorno de personalidade. Portanto, não é exatamente uma doença, mas causa severos prejuízos a pessoa e a quem convive com ela e é por causa desses prejuízos que é necessário um tratamento especializado. Então, sim, remissão existe, mas não cura. 

Há que se distinguir a diferença entre cura e remissão. Na cura, a doença desaparece e não volta, já na remissão é quando a doença permanece sob controle, ou seja, no caso do borderline é quando a pessoa não se encaixa mais nos critérios do transtorno. Para quem não sabe, existem nove critérios descritos no DSM-V,e são necessários mínimo de cinco para ter o transtorno. Alcança-se a remissão parcial quando a maioria dos sintomas fica "inativo", e remissão total quando "sobram" apenas traços (entre 1 e 4 sintomas), e assim permanece durante muitos anos ou até o fim da vida. 

Existem dezenas de terapia usadas, especificamente para o borderline, sendo a mais popular a Terapia Comportamental Dialética, criada pela psicóloga Marsha Lineham, a própria já sofreu bastante o transtorno em sua juventude. Mas além dessa, existem outras como a Terapia do Esquema, a Terapia Focada na Compaixão, STEPPS, Terapia Baseada na Mentalização, entre outras. Sendo assim, não é mais aceitável que profissionais ainda falem que esses pacientes são "difíceis" ou "incuráveis", muitas vezes profissionais que dizem assim são aqueles que não procuraram se atualizar - e eu já passei muito por isso, acredito que no Brasil ainda seja comum. 

Há muito preconceito e estigma em torno do borderline, também pela má representação do transtorno em séries, novelas e filmes, até mesmo psiquiatras conhecidos que estigmatizam o borderline reduzindo aos termos "ama demais", "manipulador", "pessoa difícil". A falta de educação e desinformação é o que tornam a pessoa tão relutante em comentar com qualquer um sobre seu próprio sofrimento, porque ela teme ser ridicularizada ou vista como alguém "sem caráter". É por isso que escrevo esse texto. Eu ouvi todas essas coisas durante toda a minha vida. Eu escutei duras palavras sobre o quanto eu era manipuladora, mentirosa, cheia de frescura, só queria chamar atenção e até mesmo de psicopata eu fui chamada. Amigos me abandonaram. Familiares de sangue se afastaram. Mas eu não desisti. Eu sentia que se existia algo de errado comigo, então teria de haver uma explicação lógica. E tem. As pesquisam provam por A+B que existem alterações no funcionamento cerebral, um aumento ou diminuição em determinadas áreas. Isso pode explicar os sintomas que tem como base a severa desregulação emocional. Eu não escolhi, você não escolheu, então não é justo dedos serem apontados e vídeos serem gravados por aí sobre o quanto essa pessoa é "ruim" ou "monstruosa". Essa é percepção de um dos lados. A história sempre tem dois lados. Geralmente, gostamos de escutar o lado da vítima em potencial, mas do outro lado pode ter alguém sofrendo intensamente e ela apenas não saiba como lidar com esse sofrimento. 

Todo mundo sofre em maior ou menor grau. Mas eu queria que as pessoas que não tem borderline imaginassem como é. Seria o equivalente a um paciente com uma queimadura de terceiro grau, só que emocional. Uma falta de proteção, de "pele emocional", o menor toque/comentário/eventos desencadeia grande dor (porque falta proteção interna) e eu pelo menos nunca vi alguém com dor ser simpático. Lembre-se de todas as vezes que você teve uma simples dor de barriga, se alguém tentasse falar com você no momento da cólica, certamente você não reagia com alegria, e sim com raiva ou desespero, porque, aquele momento, você só quer que a dor pare. Assim funciona uma crise borderline. Você pode ver uma pessoa descontrolada, desequilibrada e até menos sem caráter, mas você não sabe a verdade. Ela tem um cérebro tentando de tudo para parar uma dor emocional intensa. Essa pessoa não teve a mesma chance que você teve de aprender a lidar com as emoções, mesmo que ela tenha tido uma educação igual a sua, ela tem uma diferença cerebral. Não é proposital, não é uma falha de caráter e muito menos é incurável. 

Eu sou uma das provas de que é possível superar os sintomas que prejudicam e permanecer a parte boa. Porque sim, borderline tem partes muito boas. Você é sensível, tem alta empatia (diferente do que profissionais desatualizados dizem, o border sofre de muita empatia), muita criatividade, inteligência e alta capacidade de se colocar no lugar do outro, enxergar a vida por vários ângulos diferentes. Não existe nada de errado com você, assim como não existia nada de errado comigo. Só precisamos aprender as ferramentas para criar a pele emocional. Uma vez aprendidas, as coisas ficam mais fluídas, menos sofridas, e conseguimos lidar com a dura realidade. 

Portanto, não desista. Levante quantas vezes forem necessárias. Uma vez eu acreditei que jamais melhoraria, e hoje eu sou uma pessoa mais estabilizada, muita gente me considera "normal" (o que será que isso significa?)... Faça isso por você e por aqueles que realmente te amam. Se eu consegui, você consegue também.

Para saber mais visite o antigo blog: Blog EnlouqueSer

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