quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Sobre tudo e minha revolta




Faz tempo que não escrevo aqui e muita coisa aconteceu desde então. Se alguém ainda tem dúvida, está tudo bem, eu continuo em remissão completa do borderline, restando apenas os traços, porque não é algo que simplesmente dá para extirpar de uma pessoa. Mas, descobri que meu problema principal se chama transtorno dissociativo de identidade (TDI), ele era o guarda-chuva que abrigava todos os outros transtornos e, ultimamente, tenho lidado com ele.

O que tenho percebido é que a maioria das pessoas se constrange e repudia ainda mais o TDI do que quando eu falava sobre o borderline. É quase como se eu estivesse inventando ou fosse alguma atração exótica de um circo. Essa é, especificamente, a parte mais difícil que tenho encontrado, pois o modo como as pessoas são preconceituosas e estigmatizantes comigo afeta também o modo como eu me vejo, apesar de eu saber que não importa o que os outros digam, mas sim o que eu acredito. Vamos ser realistas: quem não fica mal com uma crítica destrutiva ou uma ofensa do outro? Eu nunca conheci ninguém.

Nesse meio tempo, além de lidar com isso, eu entrei em depressão grave no fim do ano passado e tentei cometer suicídio. Foi algo muito assustador, diferente das outras vezes, pois se antes era um ato impulsivo fruto de uma instabilidade emocional momentânea , nessa última vez parecia algo calculado, pois eu apenas conseguia enxergar o mundo em preto e branco e era sempre triste, sempre, como se um estado de desânimo permanente tivesse tomado conta de meu corpo. Quando o borderline era mais evidente, eu sentia muito em pouco tempo, altos e baixos, mas, durante aquele mês era apenas tristeza e vazio.

De qualquer forma, eu sobrevivi, e melhorei, mas sei que, qualquer dia desses pode acontecer de novo, então eu resolvi me preparar. Claro que eu estou ciente de que não existe uma forma concreta de impedir uma depressão, mas a gente é teimoso e tenta mesmo assim. Eu tenho começado a fazer coisas que eu gosto como arte surrealista, confeitaria e - finalmente - terminando de escrever um livro de fantasia. Essas atividades ocupam a minha cabeça e distraem da ambivalência que é a vida onde ao mesmo tempo existe muita beleza e motivos para querer viver e também muita crueldade e motivos para querer desaparecer.

Quanto ao TDI, bem, não existe um tratamento 100% funcional, mas o que eu já estava fazendo - a terapia comportamental  e analítica - continua ajudando. Muitas pessoas, incluindo profissionais, acham que o TDI não é real e isso é fruto de uma ideia ultrapassada e antiga, que nunca foi baseada em evidências. Atualmente, existem exames de imagem que provam que o TDI não apenas é muito real como também surge em resposta à traumas graves e sucessivos acontecidos na infância. Foi o meu caso e isso explica porque minha mente se dividiu em seis personalidades.

Os psiquiatras classificam o TDI como um transtorno dissociativo e é importante esclarecer que a dissociação é um estado comum da mente, acontecendo com todas as pessoas, como por exemplo quando você está viajando de ônibus e não se recorda de um trecho da estrada porque estava devaneando. Uma parte da sua mente pensava em alguma coisa enquanto outro observava a estrada, só que uma não soube da outra. E tudo bem. Isso passa e você segue sua vida. O TDI é a mais grave dissociação que existe, pois a mente se separa em identidade próprias, com nome, personalidade, estilo e memórias características a fim de proteger a pessoa contra o sofrimento insuportável que as lembranças traumáticas trariam. Como vocês podem ver é um mecanismo de sobrevivência e não uma invenção da cabeça.

O que mais me estressa e frustra é que as pessoas insistem em manter seus comportamentos de estigma e preconceito, e sim, eu sei que a maioria não faz por mal, mas sim por ignorância, porém, estamos em 2020 e todo mundo tem acesso a informação. No fim das contas, é mais fácil manter como está porque, se você pensar, é confortável para essas pessoas, enquanto elas mantém pessoas como nós sob estigma e preconceito, elas não tem que pensar em si mesmas e em suas próprias vidas, se pensassem perceberiam que estão cheias de problemas e complexos ás vezes mais graves dos que os seus alvos. Se pensassem perceberiam que apontar para os outros é uma fuga de si mesmas para não admitirem seus defeitos, medos e fracassos, porque, quando eu estou focando nos defeitos do outro, me sinto melhor, superior, como quando acontece uma tragédia e a gente pensa "ainda bem que não foi comigo" isso é um pensamento para nos sentirmos melhor que os outros, e faz parte de ser humano, o que eu acho que não deveria fazer é fingir que nada disso acontece e que a vida é perfeita e as pessoas deveriam seguir um manual padronizado, e, qualquer um que fuja dessa padrão seja massacrado, muitas vezes até a morte.



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